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Forrageiras tropicais nativas: profecias, concretizações e promessas

postado em 24/12/2003

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Por Allan Kardec Braga Ramos; Cláudio Takao Karia; Ronaldo Pereira de Andrade ; Francisco Duarte Fernandes 1

Pela diversidade de sua flora, o Brasil é sempre uma referência no mundo tropical. No entanto, quando consideramos as extensas áreas com pastagens cultivadas, paradoxalmente, há o predomínio de forrageiras exóticas.

A africanização de nossas áreas pastoris foi um marco, sendo que gramíneas do gênero Brachiaria, Andropogon e Panicum representam o esteio de nossa pecuária na faixa tropical. Esse processo iniciou-se involuntariamente na colonização de nossas terras e firmou-se com a nossa condição inicial de importadores de tecnologias no segmento de forrageiras e pastagens. Afortunadamente, em sua quase totalidade, essa estratégia mostrou-se bastante eficaz, apontando e pavimentando o caminho trilhado nestas últimas décadas pela pesquisa, com amplos benefícios aos seus usuários. Não obstante o êxito dessa estratégia, a observação do comportamento alimentar e da composição da dieta de animais em pastagens nativas, sempre instigaram e desafiaram indivíduos e equipes a buscarem a ampliação do conhecimento e da funcionalidade de plantas de nossa flora com valor forrageiro. O entusiasmo dos envolvidos com estes trabalhos, disseminou-se e muitas expectativas positivas surgiram em relação a estas plantas. Surpreendentemente, a percepção e a concretização do papel que as plantas nativas poderiam desempenhar em sistemas de produção, quase sempre tiveram início fora do Brasil. Como exemplo, pode-se citar o ocorrido com a leguminosa Stylosanthes e seu uso na Austrália. Ainda hoje, este fato se repete com outras espécies forrageiras. O aporte de recursos, a concentração de esforços e a agilidade de instituições de pesquisa antenadas em tendências do mercado de sementes são facilitadores deste processo, até porque não se deparam com o desafio de gerar tecnologia para uma grande região como o Cerrado ou para um país continental como o Brasil.

A utilização em outros países de plantas forrageiras nativas ou com grande parte da base genética originária do Brasil nos fornece a indicação de que os atuais esforços da pesquisa nacional estão no caminho certo. Todavia, a experiência acumulada do passado e a atual indicam que cultivares de forrageiras nativas do Brasil, quando selecionadas noutros países, em condições ecológicas distintas, ao serem "repatriadas" apresentam grandes chances de insucesso (efeito negativo da interação do genótipo com o ambiente sobre o desempenho da cultivar em nossas condições). A mesma lógica também é válida para forrageiras exóticas.

No passado, as histórias de sucesso de nossas plantas forrageiras em outros países geraram muitas expectativas e foram previstas verdadeiras revoluções no cenário agrostológico nacional. Para os pioneiros e seus discípulos, o sonho de ver plantas de nossa flora sendo amplamente cultivadas se concretizaria. Infelizmente, doenças e pragas, até então latentes ou desconhecidas, frustraram essa expectativa e causaram grande desgaste para algumas tecnologias, em especial aquelas fundamentadas no uso de leguminosas forrageiras tropicais.

O atual esforço da pesquisa abrange gramíneas e leguminosas herbáceas e arbustivas. A aposta fundamenta-se principalmente na diversidade reunida/ existente e na maior adaptação ao nosso clima e aos nossos solos. Muitos são céticos em relação ao papel destas espécies nativas, pois em teoria apresentam limitações porque são plantas que não evoluíram sob forte pressão de seleção para adaptação ao pastejo (desfolha e pisoteio) por grandes herbívoros e manadas, como as forrageiras africanas. Além disso, as plantas nativas coevoluíram e coexistem com pragas e patógenos locais, sendo hospedeiras dos mesmos. Todavia, quando se tem variabilidade genética, estas limitações podem ser superadas. Essas teorias explicam grande parte do êxito de forrageiras exóticas no Brasil, especialmente gramíneas, e o êxito de nossas leguminosas fora dos limites de nossas fronteiras.

O Brasil, um país-continente, apresenta grande diversidade de ambientes e de sistemas de produção, o que sugere a necessidade de uma ampliação segmentada do número de cultivares de forrageiras, com maior especificidade quanto ao ambiente, explorando sua interação positiva com o genótipo forrageiro em vários nichos de mercado. Nesse sentido, parte deste desafio caberá aos cultivares de forrageiras nativas, por apresentarem variabilidade para tolerância às pressões bióticas (pragas e doenças) e abióticas (clima e solo). Essa diversidade de cultivares também será salutar do ponto de vista ecológico, pois diminuiria o atual risco potencial de se ter grande parte do rebanho nacional sendo criado em pastagens formadas com pouquíssimos cultivares que, pela reprodução apomítica, são verdadeiros clones propagados por sementes. As forrageiras nativas, se adaptadas e produtivas, além da utilização na formação de pastagens cultivadas, poderiam ser destinadas ao enriquecimento florístico de ambientes degradados e à elevação da capacidade de suporte de pastagens nativas e das áreas de refúgio da vida silvestre.

A opção de outros países por forrageiras nativas do Brasil deve-se à diversidade genética aqui existente para alguns gêneros botânicos considerados chaves ou estratégicos para vários ecossistemas. As gramíneas do gênero Paspalum, as leguminosas do gênero Arachis, Stylosanthes, Desmodium, Centrosema e Cratylia são exemplos de plantas nativas com cultivares sendo utilizados em países como Austrália, Estados Unidos, Costa Rica, México, Cuba, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Peru, Argentina, China, Tailândia e Vietnã. Como exemplos de forrageiras nativas para uso no âmbito dos Cerrados, temos o capim Pojuca (Paspalum atratum) e as leguminosas estilosantes Mineirão (Stylosanthes guianensis) e Campo Grande (S. capitata + S.macrocephala). Para o ecossistema de Mata Atlântica, temos o amendoim forrageiro Belmonte (Arachis pintoi) e o desmódio Itabela (Desmodium ovalifolium). Apesar da existência de cultivares de forrageiras nativas, no Brasil a adoção ainda, apesar de gradativa, é limitada, se consideramos a adaptação e a conveniência, já validada, que muitas delas apresentam.

O predomínio de cultivares de leguminosas deve-se à nossa grande diversidade para esta família de plantas e à contribuição que as mesmas podem trazer para a nutrição animal e para a economicidade e a sustentabilidade da capacidade produtiva das pastagens, graças à simbiose com bactérias para a fixação biológica do nitrogênio do ar.

A diversidade genética reunida em nossas coleções, o nosso maior trunfo no desafio de desenvolver novos cultivares, foi ampliada pelas expedições de coleta na natureza e por programas de melhoramento. O estado atual do conhecimento e da diversidade destas espécies deve-se ao esforço de pioneiros, entusiastas e abnegados, que amplificaram os recursos (sentido amplo) à sua disposição, transformando sua missão num verdadeiro sacerdócio.

Inúmeros gêneros de gramíneas e leguminosas, de vários ecossistemas do Brasil, poderiam ser objeto de estudos. No entanto, em economia existe o princípio de que os recursos são sempre escassos. Assim, com base nas informações sobre o potencial de adaptação, a EMBRAPA Cerrados tem priorizado os trabalhos com as gramíneas nativas do gênero Paspalum e com as leguminosas nativas Stylosanthes guianensis, Arachis pintoi e Cratylia argentea, que no futuro ampliarão o portfólio de cultivares disponíveis e a participação das forrageiras nativas nas paisagens com pastagens do Brasil. Se considerada a complementaridade dos atributos dos diversos cultivares (nativos e exóticos), a rigor os mesmos seriam tecnologias não competidoras ou excludentes, e sim otimizadoras do sistema de produção.







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1Pesquisadores da Embrapa Cerrados

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