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Taninos condensados - Parte I de II: prós e contras na nutrição de pequenos ruminantes

Por Damaris Ferreira de Souza , Sergio Rodrigo Fernandes e Luciana Helena Kowalski
postado em 19/04/2012

7 comentários
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"Todas as substâncias são venenos, não existe nada que não seja veneno. Somente a dose correta diferencia o veneno do remédio" - já dizia Paracelso há muitos séculos, e, no caso dos taninos, essa afirmação é notoriamente aplicável.

Os taninos são substâncias produzidas, principalmente, pelas forrageiras tropicais com o objetivo de proteger a planta contra o ataque de bactérias, fungos, vírus e também de herbívoros (seus predadores), ou em resposta a limitações no crescimento das plantas. Em condição de estresse ambiental, as plantas aumentam a síntese de taninos para armazenar produtos da fotossíntese que poderão ser utilizados em períodos de frio ou de seca. Estes compostos são popularmente reconhecidos por apresentarem odor repulsivo, gosto amargo, por atuarem como fatores antinutricionais, e por seu potencial em provocar intoxicações nos animais (Giner-Chaves, 1996).

Os taninos são basicamente divididos em dois grupos de acordo com sua estrutura química: os hidrolisáveis e os condensados, podendo também haver uma composição mista de ambos. Os taninos hidrolisáveis não são encontrados com muita frequência na natureza, restringindo-se praticamente às espécies angiospermas dicotiledôneas (como o falso pau-brasil, carvalho, terminália), e quando consumidos são prontamente metabolizados, podendo causar quadros de intoxicações. Já os taninos condensados (TC) são moléculas maiores encontradas em espécies angiospermas e gimnospermas (como o eucalipto, pinho, aroeira, cornichão, leucena, estilosantes, sabiá), e não são prontamente absorvidos no trato gastrintestinal. Dependendo de seus teores na dieta de pequenos ruminantes, os TC podem proteger os componentes proteicos da degradação ruminal (função by pass), ou atuar como fatores antinutricionais. Entretanto, as vantagens ou desvantagens oportunizadas pelos TC não dependem apenas de suas proporções na alimentação, mas também de suas características estruturais, do estágio fisiológico do animal (categoria) e da composição da dieta ofertada aos animais.

Dividimos nosso estudo sobre taninos em duas partes. Neste primeiro artigo, destacaremos os principais pontos negativos e positivos dos TC e suas implicações na nutrição, produção e saúde de pequenos ruminantes. Por sua vez, no próximo artigo, serão abordados exemplos e algumas formas de utilização de forragens taniníferas na alimentação dos animais.

Aspectos negativos dos taninos condensados

Os TC localizam-se no interior das células vegetais e/ou no tegumento das sementes, sendo liberados rapidamente durante a mastigação ou pelo corte manual das forragens. Nesse primeiro momento, os taninos conferem sensação de adstringência, prejudicando imediatamente a palatabilidade da forragem, o que geralmente leva o animal a reduzir o consumo voluntário de matéria seca (MS).

A ação antinutricional dos TC ocorre quando os teores destes compostos nos alimentos são maiores que 5% na MS. Nessa situação, os TC interagem com diversas substâncias orgânicas como celulose, hemicelulose, pectina, minerais e especialmente com proteínas, formando complexos que não são degradados pelos microrganismos ruminais e por enzimas produzidas no trato gastrintestinal. Isso leva ao baixo aproveitamento do alimento consumido pelos animais, uma vez que os nutrientes são eliminados praticamente intactos nas fezes.

Com a redução da degradabilidade da MS, sobretudo, da proteína bruta (PB), de aminoácidos essenciais e de componentes fibrosos da dieta, ocorre diminuição na produção de leite, de lã e no ganho de peso dos animais, resultando em prejuízos aos sistemas de produção de pequenos ruminantes.

Estudos realizados na Nova Zelândia mostram que ovinos alimentados com forragens contendo diferentes teores de TC (Lotus corniculatus = 2-5%; Lotus pedunculatus = 6-10% e Acacia aneura = 12% na MS) apresentaram aumento na absorção intestinal de aminoácidos (metionina e cistina), na produção de lã e de leite, nos teores de proteína do leite e na taxa de ovulação quando consumiram dietas com 4 a 6% de TC na MS. Por outro lado, dietas com teores mais elevados de TC (8 a 10% na MS) levaram a diminuição do consumo, da digestibilidade da fibra, da absorção de nitrogênio e de aminoácidos, e da produção de lã (Aerts et al., 1999).

No Brasil, estudos apontam que o aumento da inclusão de feno de catingueira (Caesalpinea bracteosa), que apresenta teor médio de 6% de TC na MS, na dieta pode levar a redução do consumo e da digestibilidade de nutrientes em ovinos (Gonzaga Neto et al., 2001).

O consumo de alimento e o desempenho individual podem sofrer expressivo decréscimo quando os teores de TC da dieta são maiores que 10% da MS. Barry e McNabb (1999) observaram redução de cerca de 27% no consumo de MS em ovelhas que foram alimentadas com dietas contendo 11% de TC na MS. Reed (1995) e Schofield et al. (2001) relataram perda de peso de aproximadamente 100g/dia em ovinos que receberam dietas com 20% de TC na MS.

Ressalta-se, no entanto, que ovinos e caprinos expostos continuamente a espécies com altos teores de taninos (como nas regiões do semiárido do Nordeste) desenvolvem gradativamente diferentes mecanismos de defesa e/ou de adaptação. Em sistemas de pastejo os animais tornam-se mais seletivos, consumindo espécies taniníferas em menores quantidades ou misturadas com forragens desprovidas de taninos. Alguns animais apresentam aumento das glândulas salivares e produzem maior volume de saliva, o que pode favorecer a formação de complexos solúveis de tanino proteína, ou auxiliar na deglutição do alimento. Além disso, alguns microrganismos ruminais (como Streptococcus caprinus, em caprinos) tornam-se capazes de degradar os complexos tanino proteína, ou passam a apresentar maior tolerância à presença dos taninos na dieta.

Aspectos positivos dos taninos condensados

Se por um lado altas concentrações de taninos atuam como fatores antinutricionais, também é verdade que concentrações moderadas entre 2 a 4% de TC na MS da dieta podem trazer benefícios à nutrição e saúde dos pequenos ruminantes.

Nesses níveis, os taninos se ligam a determinadas proteínas e protegem as mesmas da excessiva degradação ruminal. Essas proteínas unidas aos taninos passam pelo rúmen e são liberadas no duodeno, porção do trato gastrintestinal em que o processo de absorção de aminoácidos ocorre de forma mais intensa, resultando em melhor aproveitamento da proteína dietética. Além disso, ocorre maximização da síntese de proteína microbiana no rúmen, com aumento do fluxo de nitrogênio não-amoniacal para o intestino (Sliwinski, 2002; Makkar, 2003).

Alguns estudos também indicaram melhora da composição da gordura do leite e da carne de ruminantes, pela menor saturação de ácidos graxos no rúmen quando há adição de TC na formulação das dietas. Vasta et al. (2009) relataram aumento da concentração de ácido linoleico conjugado (CLA) no líquido ruminal e aumento da concentração de ácidos graxos poli-insaturados nos músculos de ovinos alimentados com dietas que continham TC.

Quando presentes em teores próximos de 0,5% na MS, os TC podem promover redução de casos de timpanismo espumoso, decorrentes do alto consumo de pastagens novas (principalmente leguminosas de alta qualidade) com elevado teor de proteínas solúveis. Nessas condições, os TC precipitam essas proteínas ou reduzem sua degradabilidade ruminal, evitando a evolução da enfermidade.

Considerando ainda os efeitos sobre as enfermidades, os TC mostram-se promissores no controle e diminuição da infecção parasitária em pequenos ruminantes, atuando direta ou indiretamente sobre as larvas presentes no animal e na pastagem. Minho et al. (2007) submeteram cordeiros naturalmente infectados com H. Contortus a tratamento anti-helmíntico com extrato de Acácia (Acacia molissima) por via oral, duas vezes a cada 30 dias, e observaram redução significativa na contagem de ovos de parasitos e na carga parasitária desses animais. Os pesquisadores relataram que os TC podem minimizar a infecção parasitária por meio de três mecanismos: primeiro, por estimular o sistema imunológico do hospedeiro, devido a maior capacidade de aproveitamento dos aminoácidos essenciais que chegam ao intestino delgado (duodeno), compensando a perda de proteína ocasionada pelos parasitas; segundo, pelo lesionamento de larvas infectantes e parasitos adultos durante a passagem dos TC pelo intestino, levando a diminuição da fecundidade e postura de ovos pelos mesmos; e terceiro, por interferir na migração de larvas no perfil do relvado, dificultando o contato parasita hospedeiro.

Do ponto de vista ambiental, os TC otimizam a partição de nitrogênio no organismo do animal, diminuindo sua proporção na urina e direcionando sua excreção para as fezes. Como o tanino pode ser excretado ligado à proteína, a liberação do nitrogênio proteico para o solo ocorre de forma mais lenta, mantendo a fertilidade das pastagens por períodos mais prolongados. Outro aspecto positivo é a possibilidade de reduzir a produção de gás metano no rúmen, e posteriormente sua eliminação para a atmosfera, devido a ação deletéria dos TC sobre as bactérias responsáveis pela produção desse gás (Oliveira & Berchielli, 2007).

Considerações finais

Os teores de TC considerados como bons (2 a 4% MS) e ruins (acima de 5% MS) não são estritamente fixos, podendo oscilar para mais ou para menos, dependendo da espécie forrageira em questão. Associado a isso, a inclusão destas espécies em dietas para pequenos ruminantes deve ser realizada considerando o teor de TC na dieta total.

O aproveitamento das vantagens atribuídas às forrageiras taniníferas, associadas à capacidade de adaptação dos pequenos ruminantes ao seu consumo, devem ser melhor exploradas e aprimoradas para favorecer as condições nutricionais dos animais e, posteriormente, diminuir os custos de produção.

Referências bibliográficas

AERTS, R.J., BARRY, T.N., McNABB, W.C. Polyphenols and Agriculture: beneficials effects proanthocyanidins in forages. Agriculture Ecosystem and Environment, v.75, p.1-12, 1999.

BARRY, T.N.; McNABB, W.C. The implications of condensed tannins on the nutritive value of temperate forages fed to ruminants. British Journal of Nutrition, v.81, p.263-272, 1999.

GINER-CHAVES, B.I. Condensed tannins in tropical forages. 1996. 196f. Tese (Doutorado em Filosofia) - Cornell University, Ithaca, 1996.

GONZAGA NETO, S.; BATISTA, A.M.V.; CARVALHO, F.F.R. et al. Composição química, consumo e digestibilidade in vivo de dietas com diferentes níveis de feno de catingueira (Caesalpinea bracteosa), fornecidas para ovinos Morada Nova. Revista Brasileira de Zootecnia, v.30, n.2, p.553-562, 2001.

MAKKAR, H.P.S. Effect and fate of tannins in ruminant animals, adaptation to tannins, and strategies to overcome detrimental effects of feeding tannin-rich feeds. Small Ruminant Research, v.49, p.241-256, 2003.

MINHO, A.P.; BUENO, I.C.S.; LOUVANDINI, H. et al. Effect of Acacia molissima tannin extract on the control of gastrointestinal parasites in sheep. Animal Feed Science and Technology, v.147, p.172-181, 2008.

OLIVEIRA, S.G.; BERCHIELLI, T.T. Potencialidades da utilização de taninos na conservação de forragens e nutrição de ruminantes - revisão. Archives of Veterinary Science, v.12, n.1, p.1-9, 2007.

REED, J.D. Nutritional toxicology of tannins and related polyphenols in forage legumes. Journal of Animal Science, v.73, n.5, p.1516-1528, 1995.

SCHOFIELD, P.; MBUGUA, D.M.; PELL, A.N. Analysis of condensed tannins: a review. Animal Feed Science and Technology, v.91, p.21-40, 2001.

SLIWINSKI, B.J.; SOLIVA, C.R.; MACHMÜLLER, K.M. Efficacy of plant extracts rich in secondary constituents to modify rumen fermentation. Animal Feed Science and Technology, v.101, p.101-114, 2002.

VASTA, V.; MELE, M.; SERRA, A. et al. Metabolic fate of fatty acids involved in ruminal biohydrogenation in sheep fed concentrate or herbage with or without tannins. Journal of Animal Science, v.87, p.2674-2684, 2009.

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Comentários

Thayla Sara Soares Stivari

Pirassununga - São Paulo - Médica Veterinária
postado em 19/04/2012

Parabéns pelo documento!
Muito interessante e de grande contribuição.

Damaris Ferreira de Souza

Curitiba - Paraná
postado em 19/04/2012

Prezada Thayla Sara,
Agradecemos seu comentário!
Nossa expectativa é fazer com que informações já disponíveis no meio científico cheguem realmente ao conhecimento tanto de técnicos quanto de produtores e demais interessados. E que, dessa forma, sejam mais facilmente aplicadas, contribuindo para melhoria do manejo nutricional dos animais.
Um abraço!

Cecília José Veríssimo

Nova Odessa - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 20/04/2012

Parabéns pelo artigo, muito esclarecedor!

Sergio Antonio Schwartz Custodio

Iporá - Goiás - Pesquisa/ensino
postado em 23/04/2012

Obrigado pela contribuição. O artigo está ótimo e 100% útil tanto para técnicos quanto para produtores. Aguardo ansioso pela parte II do artigo.

JACOB SILVA SOUTO

Patos - Paraiba - Pesquisa/ensino
postado em 01/05/2012

Muito esclarecedor e didático o artigo que postaram.

talita carvalho pestana

Diamantina - Minas Gerais - Estudante
postado em 11/01/2014

Parabens, gostaria de saber como devo colocar sua referencia no meu Tcc , por ter utilizado muita coisa. Estou fazendo um trabalho sobre a Rama da Mandioca e seu artigo supriu meu trabalho.

Damaris Ferreira de Souza

Curitiba - Paraná
postado em 15/01/2014

Oi Talita, tudo bem?!

Sugiro que referencie como:

SOUZA, D.F.; FERNANDES, S.R.; KOWALSKI, L.H. Taninos condensados - Parte I de II: prós e contras na nutrição de pequenos ruminantes. Farmpoint Ovinos e Caprinos, Rede Agripoint, Piracicaba, 19 abr. 2012, Nutrição. Acessado em 15 jan. 2014. Online. Disponível em: http://www.farmpoint.com.br/radares-tecnicos/nutricao/taninos-condensados-parte-i-de-ii-pros-e-contras-na-nutricao-de-pequenos-ruminantes-78782n.aspx

Mas aconselho que consulte o padrão de normas utilizado na sua instituição de ensino, que pode ser diferente desse. E também que busque consultar as referências originais que citamos no texto, creio que será mais enriquecedor para seu trabalho. Tá ok?!
Boa finalização de curso por aí, Talita.
Fique com DEUS!

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