Teores de proteína bruta no concentrado de vacas em lactação mantidas em pastagem tropical manejada intensivamente

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Por Tadeu Vinhas Voltolini 1, Flávio Augusto Portela Santos 1 e Alexandre Mendonça Pedroso1

No Brasil, há um elevado potencial para a produção de leite em pastagens e este fato deve-se principalmente às condições climáticas favoráveis para o crescimento das gramíneas forrageiras tropicais, permitindo explorar sistemas de produção com alta taxa de lotação (Santos & Juchem, 2000). Além disto, o sistema de produção de leite em pastagens representa o método mais barato para o fornecimento de alimentos volumosos aos ruminantes, diminuindo os custos de produção, podendo ser decisivo para a viabilidade econômica da atividade leiteira (Lima, 2000).

No entanto, somente as pastagens não conseguem suprir as exigências nutricionais de animais de alto mérito genético. Desta forma, a suplementação com concentrados é uma ferramenta indicada para suprir as deficiências nutricionais, de ordem qualitativa e quantitativa que acometem os animais quando estes são mantidos exclusivamente em pastagens. Porém, sua utilização deve ser criteriosa e levar em consideração aspectos como o potencial genético dos animais, o desempenho frente o fornecimento do concentrado e o custo do concentrado em relação ao valor recebido pelo leite (Santos et al., 2003). Entretanto, os reais benefícios da suplementação com concentrado têm sido mascarados pela tentativa de compensação da baixa qualidade e/ou quantidade de forragens via uso indiscriminado de concentrados, além do uso de vacas não especializadas para a produção de leite, e diversas falhas no manejo com os animais (Santos & Juchem, 2000).

As limitações nutricionais impostas pelas pastagens aos animais que as consomem sugerem uma adequada formulação do suplemento concentrado visando atender as exigências em energia, proteína e minerais. Neste cenário, a proteína tem mérito destacado, uma vez que pode representar cerca de 60 a 70% do custo com alimentação (Guidi, 1999). Além disso, sua deficiência limita o desempenho dos animais, enquanto que seu excesso pode acarretar em desordens reprodutivas, aumentar as exigências em energia metabolizável para a excreção do N em excesso, e aumentar a excreção de N ao ambiente (Santos et al., 2003).

Anteriormente, as recomendações de proteína para vacas em lactação eram baseadas em proteína bruta (PB), que geravam formulações subjetivas e, deste modo, alguns modelos como a mais recente edição do "National Research Council" (NRC, 2001), utilizado para a validação de dietas para vacas em lactação, adota o conceito de proteína metabolizável. A utilização do NRC (2001), para a formulação de dietas para vacas em lactação com produção de leite da ordem 15 a 25 kg dia-1 mantidas em pastagens tropicais contendo teores de PB entre 12 a 14% indica a necessidade de teores de PB no concentrado inferiores aos tradicionalmente utilizados por produtores e pela indústria. A redução no teor de PB do concentrado de 20 a 24% para 16 a 18% pode representar uma economia considerável, podendo ser decisivo para a viabilidade econômica da atividade leiteira em sistemas de produção baseados em pastagens tropicais.

Considerando que há uma grande escassez de informações sobre este assunto, face à necessidade de estudos que envolvam as interações entre os aspectos nutricionais, ambientais e comportamentais para vacas em lactação mantidas em pastagens tropicais, foi realizado na ESALQ/USP um ensaio experimental para avaliar o efeito de diferentes teores de PB no concentrado de vacas em lactação mantidas em pastagens de capim Elefante (Pennisetum purpureum Schum var. Napier), manejado intensivamente, sobre a produção e composição do leite e parâmetros sanguíneos.

Foram formulados 3 concentrados diferentes, seguindo-se as recomendações do NRC (2001). Os ingredientes básicos dos concentrados foram: milho moído fino e polpa cítrica peletizada como fontes energéticas, farelo de soja e uréia como fontes protéicas e o suplemento mineral e vitamínico. Os concentrados diferiam-se no teor de PB, variando de 17,5 a 25,5% de PB, ou seja, T1 = 17,5%; T2 = PB; 21,5% PB e T3 = 25,5% PB. A dose de concentrado fornecida diariamente foi 6,3 kg de matéria seca (MS) ou 7,0 kg de matéria natural (MN), ou seja, estabelecendo-se uma relação de 3 kg de leite por kg de concentrado fornecido, sendo o fornecimento do concentrado fracionado em duas vezes. A pastagem utilizada foi a de capim Elefante (0,2 ha cada piquete) com aproximadamente 1 dia de ocupação e 38 dias de descanso, apresentando em média 12% de PB, 11.270 kg MS, com aproximadamente 30% de folhas, na entrada dos animais nos piquetes, 150 kg de MS/dia de taxa de acúmulo, 3,9 UA/ha e 16,40 kg de MS/100 kg de PV como oferta de forragem no pastejo de ponta efetuado pelas vacas em lactação.

De acordo com a tabela 1, pode-se observar que tanto a produção quanto a composição do leite ficaram dentro de patamares normais, considerando-se a dose de concentrado fornecida. Entretanto, os diferentes teores de PB no concentrado não afetaram (P>0,05) a produção ou a composição do leite, no que diz respeito aos teores de gordura, proteína, lactose e sólidos totais. Em contrapartida, os teores de N uréico no leite e N uréico no plasma aumentaram em conseqüência do aumento nos teores de PB no concentrado, sendo que este fato indica que pode estar havendo um excesso de proteína nos tratamentos com teores de proteína acima de 20% de PB no concentrado.

Tabela 1. Produção e composição do leite e teores de N uréico no leite e plasma de vacas em lactação mantidas em pastagens de capim Elefante (Pennisetum purpureum Schum. var. Napier) recebendo concentrado com diferentes teores de PB


Desta forma, pode-se concluir que concentrados com 18% de PB, desde que também atendam as exigências em proteína metabolizável, são suficientes para garantir elevados níveis de produção de leite em pastagens tropicais, sem que haja desperdício de proteína, o que pode gerar uma economia considerável na granja leiteira ao longo do ano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GUIDI, M.T. Efeito de teores e fontes de proteína sobre o desempenho de vacas de leite e digestibilidade dos nutrientes. Piracicaba, 1999. 89p. Dissertação (M.S.) - Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo.
LIMA, M.L.P. 2002. Produção de leite de vacas mestiças em pastagem de Capim-Elefante cv. Guaçu (Pennisetum purpureum Schum. Cv. Guaçu) e Capim Tanzânia (Panicum maximum Jacq. Cv. Tanzânia). Dissertação (M.S.) - Universidade Estadual Paulista. Jaboticabal, SP. 102 p.
NATIONAL RESEARCH COUNCIL. 2001. Nutrient Requeriments of Dairy Cattle. Washington, D.C.: National Academy Press, 2001. 381p.
SANTOS, F.A.P., JUCHEM, S.O. Sistemas de produção de leite a base de forrageiras tropicais. In: Sistemas de Produção de Leite, Passo Fundo, RS, 2001. Anais. Passo Fundo: Sist. Prod. Leite, 2000.
SANTOS, F.A.P., MARTINEZ, J.C., VOLTOLINI, T.V., NUSSIO, C.M.B. Utilização da suplementação com concentrado para vacas em lactação mantidas em pastagens tropicais. In: Simpósio Goiano sobre manejo e nutrição de bovinos de corte e leite, 5, Goiânia, 2003. Anais. Goiânia:CBNA, 2003. p. 289-346. sobre manejo da pastagem; Produção animal em pastagem, situação atual e perspectivas, 20, Piracicaba, 2003. Anais Piracicaba:FEALQ, p. 215.

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1 ESALQ/USP - Departamento de Zootecnia
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Roberto Arce Gomes
ROBERTO ARCE GOMES

NAVIRAÍ - MATO GROSSO DO SUL - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 16/04/2005

Analisando os dados por outra óptica, cheguei a conclusão que o nutriente limitante é a energia, visto que as forragens, mesmo com alto valor nutritivo, apresenta limitações para altas produções de leite devido principalmente ao enchimento do rúmen (alta fibra), o que limita grande ingestão de forragem (com isso baixo consumo de energia digestível).



Será que com o aumento da energia do concentrado dos níveis mais altos de PB, poderá ocorrer um aumento na produção, devido ao melhor aproveitamento da proteína (baixando o NUL) ???



<b>Resposta do autor:</b>



Prezado Roberto,



Sem dúvida que a energia é o ponto chave para se conseguir produções elevadas por vaca. Em função das características do ruminante e das perdas metabólicas inevitáveis, atender os requerimentos energéticos de vacas de alta produção torna-se o principal custo nutricional em sistemas intensivos de produção. E para que o aproveitamento da proteína da dieta seja satisfatório, é preciso haver um balanceamento correto entre energia e proteína, principalmente entre a fração de proteína degradável no rúmen e a energia prontamente disponível, fornecida via concentrado. Quando conseguimos sincronizar as disponibilidades dessas frações, é de se esperar um abaixamento nos valores de NUL, podendo haver resposta positiva em produção de leite.



Pelos resultados do nosso trabalho, acreditamos que a inclusão da casca de soja tenha proporcionado um ambiente ruminal mais favorável, onde houve melhor aproveitamento da proteína da dieta, que era bastante degradável no rúmen (farelo de soja e uréia). Possivelmente o pH ruminal se manteve em valores mais elevados nas dietas com a casca de soja, o que deve ter favorecido o funcionamento do rúmen. Se considerarmos que a silagem de milho utilizada tinha cerca de 40% de grãos, a dieta controle (sem o subproduto) teria aproximadamente 32% de grãos de milho. Se considerarmos o consumo médio de 23,5 kg MS/cab/dia dessa dieta, os animais estavam consumindo 7,5 hg de milho por dia, suficiente para manter o pH em valores mais baixos.



Atenciosamente,



Alexandre
Edimilson Vilela
EDIMILSON VILELA

LAGOINHA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 14/02/2005

No referido experimento o nível de produção das vacas é de 17 kg/dia.Será que se o nível de produção for de 28 kg/vaca/dia a resposta não seria outra? Gostaria dos comentários dos autores.

Grato Edimilson Vilela

<b>Resposta do autor:</b>

O nível de produção de leite assim como uma série de outras variáveis determinam as exigências de nutrientes pelos animais. Quanto maior a produção leiteira de uma vaca em lactação maior será sua exigência protéica (dependendo das demais variáveis que determinam as exigências), assim como o consumo de matéria seca dos animais deve ser superior também. Sistemas de produção de leite em pastagens tropicais que trabalham com essa média individual são difíceis de serem encontrados. O sistema de produção de leite da ESALQ/USP trabalha hoje com uma média de aproximadamente 15 a 20 kg/vaca/dia e valores aproximados a 30 kg/dia em animais no pico da lactação e dessa forma não tivemos a chance de fazer avaliações subseqüentes quanto ao nível de produção dos animais recebendo esse tipo de dieta. Contudo, um estudo semelhante a esse foi efetuado no sistema de produção de leite em confinamento também na ESALQ, comparando uma dieta basal com 16% de PB (adequada em proteína metabolizável e PDR, conforme o NRC, 2001) contra duas outras dietas contendo 17,5% de PB, onde em uma foi adicionado uréia e na outra foi adicionada farelo de soja e farelo de algodão, utilizando-se a silagem de milho como volumoso padrão, para vacas lactantes com média de produção de leite variando de 30 a 35 kg um pouco acima daquela que foi mencionada. A produção de leite, o teor de proteína do leite e a produção total de proteína foram maiores para a dieta com 17,5% de PB com farelo de soja e farelo de algodão, usando-se teores de proteína metabolizável um pouco acima da recomendação do NRC (2001). Para uma leitura mais aprofundada sobre esse tema remeto os leitores para o trabalho de Imaizumi, H. (Tese de Doutorado) da ESALQ. Em síntese foram apresentados dois trabalhos que utilizaram conceitos semelhantes e que diferiram quanto aos ingredientes utilizados e quanto aos níveis de produção dos animais, onde em um não houve diferenças entre os tratamentos, podendo-se utilizar as recomendações do NRC (2001) atendendo as exigências protéicas e no outro, a formulação via NRC precisou sofrer um ajuste. Entretanto, nesse último caso mesmo com ajustes na exigência em proteína metabolizável os teores de PB na dieta total foram da ordem de 17,5%.
Guilherme Safatle Passos
GUILHERME SAFATLE PASSOS

ITURAMA - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 05/02/2005

Quando se trata de pastagens adubadas com quantidades médias a altas de Nitrogênio, devemos ter muito cuidado na formulação do concentrado, pois embora a forragem possa ter quantidades razoáveis de "proteína bruta", ao analisarmos o perfil dessa variável, veremos que ela possui maiores quantidades das frações A+B1 (rapidamente degradada) e B3 (lentamente degradada), o que pode gerar uma deficiência de aminoácidos absorvidos no intestino e ou um excesso de amônia no rumen. Esse fato leva a um reduzido potencial para o uso de uréia no concentrado.
Qual a sua dúvida hoje?