Fechar
Receba nossa newsletter

É só se cadastrar! Você recebe em primeira mão os links para todo o conteúdo publicado, além de outras novidades, diretamente em seu e-mail. E é de graça.

Você está em: Radar Técnico > Nutrição

Holandês vs Jersey, um comparativo entre raças

Por Junio Cesar Martinez
postado em 23/04/2008

57 comentários
Aumentar tamanho do texto Diminuir tamanho do texto Imprimir conteúdo da página

 

O número de vacas Jersey está aumentando consideravelmente no Reino Unido. Muito possivelmente essa maior procura também ocorrerá aqui no Brasil em um futuro bastante próximo. Talvez não necessariamente um aumento expressivo na criação da raça Jersey, mas o produto do cruzamento de touros Jersey com vacas Holandesas, uma vez que o F1 possui características bastante interessantes para a produção de leite a pasto em nosso pais. Tal acontecimento tem sido uma resposta a demanda crescente pelo aumento da concentração de gordura e proteína no leite. Embora essa demanda tenha sido intensificada recentemente, desde o inicio da década passada ela já vem acontecendo.

Em 1995, pesquisadores já alertavam que vacas Jersey estariam mais susceptíveis a desordens metabólicas e infertilidades devido ao "stress" causado pela busca de alto desempenho individual para produção de leite. Isso tem causado certa preocupação no meio científico, visto que os sistemas mecanísticos atuais utilizados para balanceamento de dieta, na opinião de alguns pesquisadores, a exemplo do NRC (2001), muito utilizado para formulação de ração, não possuem recomendações atualizadas devido a falta de pesquisa comparando a fisiologia digestiva e nutrição das modernas vacas Jersey e Holandesas. Pelo menos essa é a opinião do pesquisador Aikman em artigo publicado neste mês em uma das principais revistas destinada a bovinocultura leiteira, o Journal of dairy Science, bem como de muitos outros por ele citados ao longo de seu artigo científico.

Tal preocupação se deve ao fato de que vacas Jersey sabidamente utilizam dietas com alta fibra mais eficientemente que a grande maioria das outras raças leiteiras, principalmente as de grande porte físico; assim como há relatos na literatura de que vacas Jersey possuem maior capacidade de ingestão de alimento por unidade de peso vivo. Também, ruminam mais tempo para cada quilo de fibra ingerido. Assim, essas particularidades e, a falta de pesquisa atual, poderiam gerar recomendações de balanceamento de ração com pouca acurácia, tornando interessante o conhecimento sobre o comportamento ingestivo de vacas Jersey e se ele difere do comportamento ingestivo de vacas Holandesas.

Os dados a seguir são fruto de um estudo recente comparando grupo representativos de vacas da raça Jersey e Holandesa.

Facilidade ao parto e saúde da glândula mamária

Todo o grupo avaliado, com exceção de uma vaca Holandesa, pariram sem necessidade de ajuda. Apenas uma Jersey foi acometida por febre do leite e tratada com borogluconato de cálcio. Uma Jersey apresentou alta queda do consumo de alimento 10 dias após a parição, entretanto, sem sintomas clínicos para intervenção médica. Uma Jersey e uma Holandesa foram afetadas por mastite durante a décima primeira e décima segunda semana de lactação.

Consumo de alimento e peso vivo

Vacas holandesas foram acima de 200 kg mais pesadas que as vacas Jersey no período seco (Figura 1) e durante a lactação. Embora o peso vivo seja muito diferente, o consumo de alimento nesta fase, em percentagem do peso vivo, não foi diferente entre as raças. Após a parição, as vacas Jersey consumiram 30% menos alimentos que as vacas Holandesas, mas quando comparadas quanto ao consumo em percentagem do peso vivo, não houve diferença significativa.

Figura 1. Peso vivo de Holandesas e Jersey entre a quinta semana pré-parto e a décima quarta semana pós-parto.


Fonte: Adaptado de Aikman et al. 2007

Produção de leite e Estimativa de balanço energético

Conforme apresentado na Tabela 1, as vacas Holandesas são mais produtivas que as vacas Jersey. Entretanto, a gordura e a proteína do leite e a concentração de energia foi maior para as vacas Jersey. Todos os termos apresentados na Tabela 1 apresentam diferença significativa do ponto de vista estatístico, exceto o teor de lactose e o balanço energético.

Tabela 1. Produção e composição do leite e estimativa de balanço energético de vacas Holandesas e Jersey entre a 2 e a 14 semana de lactação.


Fonte: Adaptado de Aikman et al. 2007

Alimentação e ruminação

O consumo de matéria seca e de fibra (FDN) das vacas Jersey foram aproximadamente dois terços das Holandesas (Tabela 2), mas o tempo gasto se alimentando não diferiu entre as raças. De todos os termos presentes na Tabela 2, apenas o tempo gasto em alimentação, número e duração da refeição não são significativamente diferentes entre as raças.

Tabela 2. Consumo de matéria seca e FDN, tempo gasto alimentando e ruminando de vacas Jersey e Holandesas


Fonte: Adaptado de Aikman et al. 2007

Digestibilidade no trato total e balanço do nitrogênio

Não foi observado diferenças na digestibilidade da matéria seca, matéria orgânica, amido, fibra em detergente ácido ou nitrogênio entre as raças, embora as digestibilidades da matéria seca e matéria orgânica e a digestibilidade aparente da fibra em detergente neutro foram numericamente superiores para o grupo Jersey.

Cinética da digestão

O fracionamento da taxa de passagem da dieta pelo rúmen foi significativamente mais alto na raça Jersey. Assim, o tempo de retenção do alimento dentro do rúmen é menor nas vacas Jersey quando comparadas com vacas Holandesas. Também, o tempo de retenção médio do alimento no trato total foi menor para o grupo Jersey.

Considerações finais

Existem, portanto, diferenças consideráveis entre os grupos raciais. Tais diferenças afetam a forma como se deve proceder o arraçoamento individual e no caso de sistema de produção de leite a pasto, o manejo da pastagem a fim de ajustar principalmente a taxa de lotação.

Vacas Jersey ficam menos tempo com o alimento retido no seu trato digestivo. Logo, a qualidade (valor nutricional) e o aspecto físico do alimento (processamento) fornecido, afetam o desempenho do animal. O comportamento ingestivo de cada grupo racial deve ser respeitado, em especial nos sistemas a pasto. Vacas Jersey tendem a ficar mais ociosas entre as oito horas da manhã até o meio dia. Por outro lado, são mais ativas entre a meia noite às 4 da manhã. Estudos sugerem que esse comportamento da raça Jersey proporciona um suprimento de alimento ao rúmen mais regular, podendo ser o dos fatores que ajudaria a explicar a tendência para maior digestibilidade deste grupo racial.

Essa também pode ser uma das explicações para o fato de que o rúmen de vacas Jersey tem menores variações nos picos cíclicos de produção de ácidos graxos voláteis e flutuação do pH ruminal em relação a vacas Holandesas. Certamente essa capacidade das vacas Jersey confere uma vantagem metabólica em situações que induzam a acidose ruminal. Outra habilidade interessante de vacas Jersey é a maior mastigação do alimento, proporcionando maior redução no tamanho de partícula, ajudando na digestibilidade; e produzindo maior quantidade de saliva, tamponando melhor o rúmen e favorecendo um pH mais favorável para digestão de fibra.

Portanto, fica evidente que as particularidades entre as duas raças devem ser respeitadas no momento da formulação da ração e que, mais estudos são necessários para aumentar a acurácia dos modelos mecanísticos usados para balanceamento de dietas para vacas leiteiras. Entretanto, é importante deixar claro que embora melhorias nas equações sejam necessárias para melhor contemplar a raça Jersey ou os produtos dos cruzamentos entre Jersey e Holandês, os conhecimentos e as equações atuais atendem a contento o balanceamento de ração na forma como atualmente é feito.

Fonte:

Adaptado de:

P. C. Aikman, C. K. Reynolds, D. E. Beever. Diet Digestibility, Rate of Passage, and Eating and Rumination Behavior of Jersey and Holstein Cows. J. Dairy Sci. 91:1103-1114. 2007

Avalie esse conteúdo: (4 estrelas)

Comentários

Dalva de Oliveira Lima

Araxá - Minas Gerais - Produção de leite (de vaca)
postado em 23/04/2008

Prezado Sr. Junio César,

Sou agropecuarista e trabalho com a raça Jersey, gostei muito de seu trabalho. As características da raça Jersey devem ser mais divulgada, pois tenho escutado muitas críticas e comentários pejorativos, de produtores de gado holandês, que menosprezam e ignoram as qualidades da Jersey.

Parabenizo-o pelo seu artigo e desejo que muitos produtores de gado holandês o leiam.

Dalva

Helvecio Oliveira

Belo Horizonte - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 24/04/2008

Bom dia Junio.

É muito válido apresentar subsídios para a escolha de raças para cruzamentos. Quanto mais informação melhor. Fiquei em dúvida ao ler seu artigo por não encontrar uma unidade de referência, por exemplo os dados em relação ao peso vivo dos animais estudados, pois desta forma ficaria mais fácil comparar, ou seja diante da mesma unidade.

Forte abraço Helvécio.

Resposta do autor

Prezado Helvecio,

Os dados apresentados nas Tabelas 1 e 2 se referem aos animais de Peso vivo apresentado na Figura 1. Lembrando que o estudo por mim apresentado são com vacas confinadas.

Como informação complementar, durante os estudos para a minha tese de doutorado, tive a oportunidade de trabalhar com vacas Jersey e mestiças F1 Holandês/Jersey mantidas em pastagens tropicais e recebendo suplementação com concentrado. As Holandesas pesavam em média 550 kg de PV e produziam em média 19 kg de leite.

As Jersey pesavam em média 450 kg de PV e produziam em média 15 kg de leite. As meio sangue somente tive a oportunidade de trabalhar com elas quando primíparas, pesavam em média 390 kg de PV e produziram em média 16 kg de leite.

Um grande abraço.
Martinez.

Paulo R. F. Mühlbach

Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Consultoria/extensão
postado em 25/04/2008

Prezado Junio,

O artigo trata de um tema interessante e a comparação Holandês X Jersey tende muitas vezes a ser polêmica.

Um pequeno reparo: como o trabalho da Dra. Patricia C. Aikman saiu no Journal of Dairy Science do mês em curso, a citação é do ano 2008. Com base em mais dados no trabalho original gostaria de comentar o seguinte:

De fato, em relação ao peso médio dos animais de cada raça, o desempenho metabólico das vacas em lactação foi igual, em torno de 6 MJ de energia secretada no leite por kg de matéria seca consumida, para ambas as raças. Outro ponto relevante: neste estudo a composição da dieta era exatamente a mesma para ambas as raças, em média de 38,6 % de FDN, durante o período estudado da lactação. Isto é algo que não é comum na prática, especialmente porque a produção média diária das vacas Holandesas foi de 42,6 kg enquanto as Jersey produziram apenas 25,3 kg. Ou seja, na prática se alcançaria com a vaca Holandesa a produção de 25 kg/dia apenas com um volumoso com uns 55 % de FDN, portanto com uma alimentação bem mais barata.

Outro aspecto que pode ser desvantagem da raça Jersey é o menor tamanho da boca, e por consequência, da bocada, o que fica comprovado na Tabela 2 pelo maior tempo gasto na alimentação, por kg de MS e por kg de FDN. Em relação ao comportamento ingestivo a autora é bastante cautelosa no trabalho original ressalvando que o observado deu-se nas condições do estudo em questão. Da mesma forma, mesmo que alguns dados de cinética da digestão mensurados o sugiram, a autora não é incisiva em afirmar que a vaca Jersey tenha melhor capacidade de regular a fermentação no rúmen, já que não encontrou na literatura trabalhos neste sentido e também não os mediu (produção de AGV, pH, etc.).

Portanto, é preciso certa cautela e, com base nos dados disponíveis, não se pode ser conclusivo se uma raça é melhor do que a outra. É preciso sempre considerar que são 42,6 kg ao dia contra 25,3 kg e que, na prática, outros aspectos são relevantes. Por exemplo: se eu ordenhar 3 vacas Holandesas de 42,6 kg eu produzo 128 kg, para o que eu precisaria ordenhar 5 vacas Jersey de 25 kg.

Resposta do autor

Prezado Paulo,

Obrigado pelo complemento ao artigo que escrevi. Sim, suas colocações são todas verdadeiras. No tocante a sistemas confinados, a raça Holandesa é imbatível e isso não carece de discussão. Entretanto, em sistemas que exploram pastagens, e se fixarmos pastagens tropicais, o uso de vacas holandesas de peso bastante inferior ao peso vivo médio de vacas holandesas confinadas, o uso de vacas jersey e o fruto de seu cruzamento (F1) torna-se muito interessante.

Quer receber os próximos comentários desse artigo em seu e-mail?

Receber os próximos comentários em meu e-mail

Envie seu comentário:

3000 caracteres restantes


Enviar comentário
Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

Copyright © 2000 - 2014 AgriPoint Consultoria Ltda. - Todos os direitos reservados

O conteúdo deste site não pode ser copiado, reproduzido ou transmitido sem o consentimento expresso da AgriPoint.

Consulte nossa Política de privacidade