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Formulação de rações para vacas leiteiras - Parte 2

Por Junio Cesar Martinez
postado em 25/10/2010

28 comentários
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Para ler a primeira parte desse artigo, clique aqui.

4. Composição dos alimentos e exigências nutricionais

Na Tabela 1 são apresentadas as composições bromatológicas de diversos alimentos utilizados nas rações de vacas leiteiras no Brasil.

Tabela 1. Composição bromatológica dos alimentos



Na Tabela 2 são apresentadas as exigências nutricionais de uma vaca leiteira mantida em pastagem ao longo da lactação de 6250 kg de leite em 305. Também são apresentadas formulações de rações para essa vaca no início, meio e final de lactação. Os cálculos foram feitos utilizando o NRC (2001).

Tabela 2. Rações para vacas leiteiras durante a lactação



Na tabela 2 pode-se observar que à medida que a lactação da vaca avançou no tempo e a produção de leite foi sendo reduzida, foram feitas alterações na ração total. Tanto os teores de energia como os teores de proteína bruta foram reduzidos na ração. A concentração de proteína degradável no rúmen foi muito pouco alterada. Já a concentração de PNDR foi reduzida de 5,3 para 4,5%, uma vez que a exigência da vaca em proteína metabolizável diminuiu, mas não a exigência do rúmen em PDR. Na prática isto significou redução no teor de farelo de soja e aumento no teor de ureia na ração com o avançar da lactação.

5. Formulação de ração através do Quadrado de Pearson

Quando ainda não se dispunha de computadores para a formulação de ração, os modelos traziam as exigências energéticas e protéicas do animal em tabelas, e os cálculos eram feitos manualmente. Tomemos por exemplo um modelo que adotasse as exigências energéticas do animal em NDT e as exigências protéicas em PB. Será usada como exemplo uma vaca adulta de 500 kg de peso vivo, no pico de lactação, com produção de 25 kg de leite/dia, com 3,5% de gordura e 3,1% de proteína bruta. Os ingredientes disponíveis para a ração são pasto de alta qualidade, polpa cítrica, farelo de soja e mistura mineral.

De acordo com o programa, o consumo de MS esperado é de 16,78 kg/dia. As exigências para manutenção e produção de leite são de 11,91 kg de NDT e de 2,56 kg de PB.

Suponhamos que a dose fornecida de concentrado seja de 1 kg de matéria natural de concentrado por kg de leite. Portanto, 25 kg de leite divididos por 3 resulta na dose de 8,3 kg de matéria natural de concentrado por vaca/dia. O teor de MS do concentrado é de 90%, portanto serão necessários 7,47 kg de MS de concentrado (8,3 x 0,9).

O consumo total predito pelo programa é de 16,78 kg de MS. Assim o animal terá que ingerir 9,31 kg de MS de pasto. Esta ingestão de pasto fornecerá 6,05 kg de NDT (9,31 x 0,65) e 1,49 kg de PB (9,31 x 0,16).

Portanto o concentrado terá que fornecer 5,86 kg de NDT (11,91 - 6,05) e 1,07 kg de PB (2,56 - 1,49).

Para fazermos o cálculo do concentrado em matéria natural, teremos que incluir os 5,86 kg de NDT e 1,07 kg de PB nos 8,3 kg de concentrado que a vaca irá consumir. Isto é, teremos que formular um concentrado com 70,6% de NDT e 12,9% de PB na matéria natural. Vamos arredondar os valores para 71% de NDT e 13% de PB.

Para formular o concentrado com 13% de PB com os ingredientes polpa cítrica e farelo de soja pode-se utilizar o quadrado de Pearson, da seguinte maneira:

O teor de PB do milho moído na MS é 9,4%. Para calcular o teor de PB na matéria natural, basta multiplicarmos 9,4 pelo teor de MS do milho:

9,4 x 0,88 = 8,27% de PB na matéria natural

O mesmo é feito para o farelo de soja:

50 x 0,88 = 44 % de PB na matéria natural

Para facilidade de cálculo vamos arredondar os valores para 8% de PB na matéria natural do milho. Agora se monta o quadrado de Pearson:

Milho: 8% de PB 31
13% de PB
F. soja: 44% de PB 5/36

Na coluna da esquerda colocamos os dois ingredientes que irão compor o concentrado. Na região central do quadrado colocamos o teor de PB almejado e na coluna da direita colocamos a diferença entre os valores calculados de forma cruzada, ou seja: na linha do farelo de soja colocamos o resultado da subtração entre o teor de PB do milho e o teor de PB almejado, ou seja, 8 - 13 = 5. Na linha do milho de soja procedemos da mesma forma, 44 - 13= 31.

Então somamos 31 + 5 = 36. Para calcular a proporção de cada ingrediente, procede-se da seguinte maneira:

Milho: (31 / 36) x 100 = 86,11%
F. Soja: (5 / 36) x 100 = 13,89%

Portanto, na batida de 100 kg de concentrado deverão ser incluídos:
86,11 kg de milho
13,89 kg de farelo de soja

Para incluir 5 kg de núcleo mineral nos 100 kg de ração e manter o teor de 13% de PB na mistura, será necessário fazer o seguinte ajuste:

Polpa cítrica: 80,00 kg
Farelo de soja: 15,00 kg
Núcleo mineral: 5,00 kg

Após todos estes cálculos fica claro que não faz sentido abrir mão da utilização de um programa informatizado de formulação de ração.

6. Formulação de rações utilizando o NRC (2001)

A seguir apresentaremos os passos para a utilização do NRC(2001). O programa encontra-se disponível na internet (site: http//:www.nap.edu). Antes da instalação do programa, é necessário alterar a configuração regional do seu computador para o inglês (USA), pois no sistema americano, vírgula é ponto e vice-versa.

Ao iniciar o programa siga os seguintes passos para formular a ração:

a) clique na janela "inputs"
b) clique "program settings"


Na coluna da esquerda aparecerão os itens Units e Basis:
Sugestão: formule a ração com base na unidade métrica (metric) e em matéria seca (dry matter).

Na coluna do meio, constará o item Cabeçalho (header text) e rodapé (footer text):
Escolha a seu critério como gostaria que saísse o impresso dos relatórios. Sugestão: left( long date); center (simulation fale name); right (page number)

Na coluna da direita tem-se o item "Ration Results":
Os itens ali escolhidos aparecerão na tela quando estiver formulando a ração, para que você possa efetuar os ajustes necessários em proteína, energia, etc.
Sugestão: use a sugestão do programa mantendo clicado o item "use default results based on animal type" na parte inferior do lado direito da tela.

Completado o item Program settings, vamos agora descrever o animal:

c) clique o item "animal description" e preencha as seguintes opções:

Tipo de animal: vaca em lactação (lactating cow).
De baixo para cima preencha os itens: intervalo entre partos, idade ao primeiro parto, ordem da lactação, dias em lactação, condição corporal, dias prenhe, peso vivo e idade em meses.

d) clique em "production":

Digite o peso da vaca na idade adulta;
Escolha a raça do animal;
Clique no quadrinho inferior para computar o peso do bezerro ao nascer com base no peso da vaca na idade adulta determinado;
Digite a produção de leite;
Digite o teor de gordura do leite;
Digite o teor de proteína bruta do leite;

e) Clique em "Management/Environment"

Digite a temperatura média do local no período em questão
Digite se os animais estão pastejando (grazing) ou não
Em caso de pastejo, determine a distância média percorrida da ordenha ao pasto
Digite quantas vezes por dia ela percorre essa distância
Digite se o terreno é plano ou montanhoso

Concluídas todas as etapas do "Inputs" clique a próxima janela:

f) FEEDS

Após clicar a janela FEEDS, vamos escolher os alimentos:

g) clicar em "add feeds to ration":

Ao fazer isto aparecerá na tela a biblioteca de alimentos. Clique os alimentos desejados e então clique o botão "add"

Após a escolha dos alimentos, cheque a composição de cada um deles e faça as alterações necessárias de acordo com a análise bromatológica dos seus ingredientes.

Concluídas todas estas etapas clique na janela RATION para formular a ração.

h) RATION

Coloque as quantidades de cada ingrediente e cheque os resultados na tela a direita. Use seus conhecimentos de nutrição para formular uma boa ração

i) REPORT

Ao clicar esta janela você encontrará os relatórios que podem ser visualizados ou impressos.

7. SIMULAÇÃO

Vamos agora utilizar o NRC (2001) para formular dietas para uma vaca leiteira. Alimente o programa com os seguintes dados:

Animal type: lactating cow
Age: 53 months
Body weight: 540 kg
Days pregnant: 60
Days in milk: 150
Condition score: 3
Calving interval:12
First calving: 24

Mature weight: 540
Breed: Holstein
Milk production: 20
Milk fat: 3.6
Milk crude protein: 3.2

Grazing
Distance: 200 m
One way trips: 4
Flat


Escolha os alimentos:

Bermudagrass hay, tifton-85
Corn grain ground, dry
Soybean meal, 44
Urea
Vitamin premix 1


Corrija os valores do tifton-85 simulando um pasto de alta qualidade:

NDF: 60
CP: 13
Lignin: 3

Ração 1

Digite 12 kg de MS de pasto, 5,1 kg de milho, 0,3 kg de mistura mineral, totalizando 17,4 kg de MS, conforme proposto pelo programa (Predicted DMI). Lembre-se que o programa é em inglês e, portanto deve-se usar ponto ao invés de vírgula, ou seja, 5.1 e não 5,1.

Acompanhe no RATION RESULTS: NEL Allowable milk: 23.3 kg/d

Isto significa que a ração é capaz de suprir Energia Líquida de lactação (Nel) para a produção de 23,3 kg de leite. Há sobra de energia, uma vez que a vaca está produzindo 20 kg. Isto é recomendável uma vez que aos 150 dias de lactação esta vaca deverá estar ganhando condição corporal. Entretanto, o ganho de 0,4kg/d mostrado no SUMARY REPORT, está um pouco acima do ideal, exigindo que se monitore a condição corporal da vaca para evitar vacas obesas na secagem.

Uma unidade de condição corporal corresponde à aproximadamente 80 kg de peso vivo. O objetivo é que a vaca chegue ao momento da secagem, aos 305 dias de lactação (12 meses de intervalo entre partos) com condição corporal 3,5. Portanto, esta vaca deveria ganhar 0,5 (3,5 - 3,0) unidades, ou seja, 40 kg de peso vivo (0,5 x 80) nos 155 dias restantes de sua lactação. Isto significa 40/155 = 0,258 kg/d.

Sendo conservador, uma vez que a qualidade do pasto pode variar ou a vaca pode estar consumindo menos pasto que o previsto por causa de estresse térmico ou outros fatores, seria prudente manter esta sobra de energia (0,4 kg/d), desde que a condição corporal do animal seja monitorada regularmente.

MP Allowable milk: 14.5 kg/d

Observe que há proteína metabolizável suficiente para apenas 14,5 kg de leite/d, quando o objetivo é atingir 20 kg de leite. Recordando, a proteína metabolizável é representada pelos aminoácidos provenientes da digestão intestinal da proteína microbiana, PNDR e proteína endógena. Portanto, o primeiro passo para aumentar a disponibilidade de proteína metabolizável para a vaca é tentar aumentar a síntese microbiana no rúmen.

Observe que na parte inferior do quadro RATION RESULTS está escrito em negrito que há falta de PDR. Olhe no RATION RESULTS que há um balanço negativo de 357g. Isto significa que a síntese microbiana está sendo limitada no por falta de PDR. A forma mais barata de tentar suprir esta deficiência é através da adição de uréia. Uma deficiência do programa é que o NRC (2001) considera PDR como uma entidade única, desconsiderando que na realidade ela é composta por peptídeos, aminoácidos e amônia. Vale lembrar que a adição de uréia adiciona apenas amônia ao fluido ruminal e, portanto, a resposta em produção de leite sugerida pelo programa pode não ser obtida na íntegra na prática.

Na tentativa de suprir a deficiência de PDR adicione 0,15 kg de ureia e retire os correspondentes 0,15 kg de milho, mantendo o consumo total em 17,4kg de MS. Observe que continua sobrando energia (suficiente para 23,1 kg de leite) e que agora há proteína metabolizável para 19,2kg de leite. Este aumento na disponibilidade de proteína metabolizável ocorreu devido a uma maior síntese de proteína microbiana, que pode ser constatada checando o SUMARY REPORT. Houve um aumento na proteína metabolizável proveniente de bactérias (MP-Bacterial =939 g/d contra 751g/d antes da adição de ureia).

Observe também que o balanço de PDR mostra uma sobra de 68 g, valor este adequado.

Apesar do aumento em produção de leite, ainda não foi possível fazer a vaca produzir os desejados 20 kg/d, por falta de proteína metabolizável, que ainda apresenta um balanço negativo de - 51g/d.

Há duas formas de suprir esta proteína metabolizável:

a) A primeira alternativa é suprir mais milho, mais ureia e menos pasto, a fim de aumentar o NDT e a PDR da dieta e estimular uma maior síntese de proteína microbiana. Lembre-se que a produção de proteína microbiana é computada pelo NRC(2001) como: kg de NDTajustado * 0,13

b) A Segunda alternativa é suprir um pouco de farelo de soja, a fim de aumentar o suprimento de PNDR para o intestino. Forneça 4,5 kg de miho, 0,5 kg de farelo de soja, 0,1 kg de ureia, 0,3 kg de mineral e 12 kg de pasto. Observe que continua havendo sobra de energia e que houve aumento na disponibilidade de proteína metabolizável, agora suficiente para produzir 20,5 kg de leite/d.

Após fazer os ajustes em energia e proteína, cheque no SUMARY REPORT se o teor de fibra (NDF e FNDF) está adequado e a relação entre CF e CNF.

Considerações finais

Formulação de ração é um tema importante e deve ser encarado com cuidado, pois um balanceamento incorreto não surtirá os efeitos desejados. Se fornecermos menos nutrientes do que o necessário, a vaca não apresentará o seu potencial genético e perderemos dinheiro. Se fornecermos mais nutrientes do que o necessário, gastaremos mais dinheiro, causaremos desequilíbrio no organismo do animal e causaremos efeitos ambientais indesejáveis com a maior produção de dejetos e lixiviação de nutrientes para o lençol freático.

Para formulações gratuitas, procure o departamento técnico da cooperativa ao qual é cooperado, ou um extensionista da EMPAER ou algum outro órgão de extensão do governo, ou mesmo instituições de pesquisa como universidades, escolas agrotécnicas ou centros de difusão de tecnologia. Para formulações e acompanhamento vip, existem um grande número de consultores autônomos ou empresas de consultoria na área.

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Comentários

Marcos Tadeu Cosmo

Sales - São Paulo - Produção de leite (de vaca)
postado em 02/11/2010

Caro Junio,

Obrigado por excelente conteúdo.

Com relação ao software NRC o link completo é :

http://www.nap.edu/catalog.php?record_id=9825

No meio da pagina, lado direito está "NOTES : NRC Model Software (Downloadable)

Creio que é o mesmo que você menciona.Vai ficar mais fácil para quem quiser fazer o download.

Abs

Marcos

Dario Silva Medrano

Outro - Santa Cruz - Bolívia - Revenda/ distribuição de produtos para a produção
postado em 11/11/2010

Doctor:
un artículo muy bueno, le agradesco que nos enseñó el uso del prograna NRC, además de facilitarnos el link.

Doctor, en el Brasil no utilizan afrecho de arroz, arroz quebrado, descarte de frejol, girasol grano y girasol harina.


Saludos

Darío Silva Medrano


Junio Cesar Martinez

Tangará da Serra - Mato Grosso - Consultor técnico
postado em 12/11/2010

Prezado Marcos,
Obrigado pela colaboração, é o mesmo software. De início ele pode parecer meio chatinho, mas depois se acostuma com a interface do programa. Apenas lembrem-se de não se iludirem com a interface amigável do programa. Tem-se que entender de nutrição para uma correta formulação.

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