Você está em: Radar Técnico > Nutrição
Como fazer e fornecer uma boa silagem?
O objetivo deste texto é fornecer informações práticas para gestão da qualidade da silagem e fornecimento aos animais visando determinar e avaliar potenciais problemas de saúde em vacas leiteiras.
Por que avaliar a qualidade dos alimentos ensilados?
Embora as silagens sejam os alimentos mais comuns nas fazendas leiteiras, são elas também os alimentos mais variáveis na alimentação dos animais. Como resultado, elas são geralmente fonte de problemas advindos da alimentação. Então, alguns parâmetros para determinação da qualidade devem ser observados.
1.1 Avaliação sensorial da silagem
Uma caracterização significativa da qualidade da silagem pode ser conseguida por meio do olfato, visão e tato, sugerindo a necessidade de mais produtos químicos ou caracterização física do alimento. Os passos são os seguintes:
a) Coloração da Silagem - pode indicar potenciais problemas de fermentação. Silagens com excessivo ácido lático poderá ter uma coloração amarelada, enquanto aquelas com alto ácido butírico poderá ter tom esverdeado. Silagens marrons e pretas normalmente indicam danos por aquecimento e umidade. Essas silagens têm alto potencial para aparecimento de mofos e não devem ser oferecida aos animais. Coloração branca também indica crescimento de mofos.
b) Odor da silagem - pode também ser utilizada para avaliação do padrão de fermentação da massa ensilada. Silagem normal tem fraco odor devido ao ácido lático. Caso a produção de ácido acético seja alta, então a silagem pode ter um cheiro de vinagre. Alto etanol proveniente da fermentação de levedura provoca cheiro de álcool na silagem. Fermentação clostrídica resulta em cheiro de manteiga rancificada. Fermentação propiônica resulta em cheiro forte e adocicado ao paladar. Danos por aquecimento pode causar caramelização ou cheiro de tabaco. Silagens mofadas têm cheiro de podre. Lembre-se que o cheiro é importante para evitar redução do consumo dos animais.
1.2 Avaliação química da silagem
Esta análise deve ser realizada em laboratórios de análises comerciais, podendo ser analisados os seguintes parâmetros:
a) Umidade - a determinação da quantidade de água é importante para conhecimento da matéria seca e, portanto, para o balanceamento da dieta. Este teste é simples e pode ser feito de forma artesanal na própria fazenda, utilizando um microondas.
b) Proteína bruta - a fornecimento de proteína é o que mais onera a alimentação. Assim, a quantificação correta do teor protéico da forragem é importante para o conhecimento da quantidade de proteína suplementar que deverá ser provida proveniente de concentrados, que são mais onerosos que as forragens.
c) Proteína solúvel - é a medida de quanta proteína é potencialmente utilizada no rúmen para a produção de proteína microbiana. O excesso de proteína será metabolizada pelo fígado e excretada na urina, encarecendo o custo da alimentação. Silagens mal manejadas têm mais de 60% da proteína na forma solúvel, o que não é bom. O ideal é que a fração solúvel permaneça entre 40 e 60% da proteína bruta total.
d) Nitrogênio amoniacal - esta fração corresponde ao nitrogênio não proteico (NNP) da fração solúvel. O objetivo é minimizar o NNP e com ele as aminas, que podem reduzir o consumo dos animais. Bom seria manter essa fração entre 8 e 10% da proteína bruta total.
e) Fibra em Detergente Neutro (FDN) - quantifica a quantidade de parede celular é inversamente proporcional ao consumo de matéria seca. Alta fração FDN tem baixo potencial de consumo, que pode ser minimizado pelo processamento do alimento por meio de uma picagem bem feita.
f) Perfil da fermentação - essa é a mais nova e importante análise química. Visa quantificar cada importante ácido graxo volátil produzido durante o processo fermentativo. Normalmente o ácido lático é o predominante, perfazendo cerca de 60% do total dos AGV da silagem. Excessiva quantidade de acético, propiônico ou butírico, assim como etanol, indica fermentação de baixa qualidade.
1.3 Características físicas
a) pH - é uma medida de acidez. Silagens de alta umidade são instáveis quanto ao pH. Silagem de boa qualidade está associada com baixo pH, variando entre 3,8 e 4,2 para silagem de milho e entre 4,0 e 4,8 para silagem de gramíneas.
b) Temperatura - é uma medida da quantidade de calor produzida, que pode ser facilmente mensurada com a ajuda de um termômetro. Depois de estabilizado o processo fermentativo, a temperatura deverá ser próxima da ambiente. Temperatura acima da temperatura ambiente sugere respiração oxidativa realizada por mofos e outros fungos. Temperatura acima de 49ºC sugere potencial para danos por calor. Boas silagens não esquentam quando no cocho à disposição dos animais.
c) Tamanho de partícula - a fibra é de fundamental importância na dieta de ruminantes para manter as funções do rúmen e a atividade de ruminação. Partículas muito pequenas podem causar problemas metabólicos, mas por outro lado, tamanho de partícula muito grande reduz o consumo e o desempenho dos animais. No Brasil, com os implementos disponíveis, o objetivo é reduzir ao máximo o tamanho de partícula.
Considerações finais
Durante minha vida profissional, muitas vezes eu não me senti confortável para formular dietas a produtores de leite, por razões diversas. Mas com a experiência adquirida, hoje acredito que posso envolver o produtor como um agente monitorador, ou pelo menos essas é a melhor coisa a ser feita, ao meu entender.
Alimentos de qualidade e estratégias de alimentação têm uma percentagem importantíssima na redução dos problemas advindos da alimentação nas fazendas. Um extensionista e um produtor devem trabalhar juntos. Ambos devem entender que a qualidade dos alimentos e o diagnóstico dos componentes críticos é determinante para o sucesso da exploração leiteira. Muitas vezes produtores e extensionistas praticamente "declaram guerra" quando da formulação de uma dieta ou implementação de uma estratégia de alimentação.
Muitos dos conceitos aqui apresentados podem ser usados não somente para diagnosticar problemas, mas também para ajudar os produtores no processo de fazer melhores silagens. O monitoramente deverá começar com o primeiro corte!
Sempre que possível preferir silos trincheiras. Observe o contorno, as bordas e a superfície do silo. O silo deve ter bordas lisas e retas para minimizar o contato com oxigênio. Silos irregulares e com face desigual tem maior área de superfície exposta ao oxigênio e, portanto, maior chance de atividade microbiana indesejável, e pior será a qualidade da silagem.
Comentários:
Tangará da Serra - Mato Grosso - Consultor técnico
postado em 06/09/2010
Prezado Luciano,
O ácido butírico deve estar presente na menor proporção possivel, preferencialmente próximo a zero. Por outro lado, o ácido acético é o responsável pela queda desejável no pH da massa ensilada, e portanto determinante de sua qualidade, e seus valores devem ser os maiores possiveis, como por exemplo 8,5% da matéria seca. Este link disponibilizado pela embrapa fornece mais argumentos sobre esse assunto: http://www.cpap.embrapa.br/publicacoes/online/DOC57.pdf Com relação à proporção de partículas acima do tamanho de partícula máximo recomendado, a recomedação é que para forragens muito fibrosas, e portanto de difícil compactação, o tamanho de partícula nunca deverá exceder 2,5cm, e, segundo a Penn State University, não mais do que 10 a 15% da massa ensilada.
Marco Antonio Parreiras de Carvalho
Belo Horizonte - Minas Gerais - Produção de gado Brahman
postado em 06/09/2010
Caro Junio,
Gostei muito do seu artigo. Este ano fiz silagem de capim elefante enriquecida com farelo de trigo e ficou excelente quanto a cor, odor e umidade. O capim foi pré-secado de vépera e em muito bom porte.
Pergunto-lhe: até que ponto este tipo de silagem pode substituir a silagem de milho? Utilizo, em minha propriedade, 5 tratos/dia, três de silagem de milho e dois com canaXuréiaxsulfato de amônia, com pastejo noturno. Onde, se for o caso, entraria a silagem de capim elefante de boa qualidade? Concentrado 1 X 3, o restante o habitual quanto a mineral, agua, sombra etc... Gado jersey, jersolando e holandês, 6 a 9 mil Kg/leite.
Muito obrigado,
Marco Antonio
Tangará da Serra - Mato Grosso - Consultor técnico
postado em 08/09/2010
Prezado Marco,
Com uma propriedade tão bem estruturada, certamente o Sr. dispõe de alguém competente para formular suas dietas. Não vejo problemas de aceitação de uma silagem de capim bem feita, em relação a uma silagem de milho. Quanto substituir? Um programa de formulação irá responder, ou, se o programa que o Sr ou o seu técnino usa não tem esse alimento na biblioteca, uma análise bromatológica da silagem de capim elefante irá responder. Possivelmente a inclusão vai ser um pouco abaixo devido ao teor de fibra, mas fatalmente uma silagem de capim pode compor boa parte da dieta, em especial de animais de baixa produção. Boa sorte nas novas formulações e deixe aqui seu depoimento posterior!
Lucas Antonio do Amaral Spadano
Gouvêa - Minas Gerais - Produção de leite (de vaca)
postado em 15/09/2010
Excelente artigo. como já foi dito, didático, sério e importante. parabéns.
vou dar palpite na seara alheia. trato o gado o ano inteiro com capim elefante e cana, variando apenas a época. não tenho pastos, praticamente, apenas pequenos piquetes. Já fiz silo de capim elefante e achei ótimo o resultado, só que usei polpa cítrica, ao invés de trigo, o capim sofreu o corte em torno de 75 dias após brotação, a análise demonstrou que chegamos próximos à silagem de milho, em termos de PB, claro, com o percentual de amido mais baixo. mas, muito palatável e protéico. Dr. Marco Antônio experimente, talvez valha a pena, mas o capim tem que ser jovem e viçoso.
Dr. Junio, desculpe-me a intromissão, não tenho, por óbvio, conhecimento profissional suficiente para abordar determinados assuntos, mas tomei a liberdade de expor uma experiência por mim realizada, que funcionou, mesmo realizada por um leigo. Imprimi seu artigo, e no próximo silo de milho que eu fizer vou mandar fazer alguns exames, sempre tive medo de ensilagem de milho, mas faço, esou abrindo hoje, dia 15, o primeiro de milho, Deus queira que eu tenha acertado. Seus conselhos serão muito úteis com certeza. Já vi algumas destas guerras de conceitos, acho bobagem, muitos produtores ainda não entenderam que a assistência profissional é de extrema importância, sou ex consultor empresarial e sei bem do conflito relativo a mudanças em relação a conceitos antigos. Escreva mais artigos, para nós com certeza serão de extrema importância, este é um dos melhores dos últimos tempos no milkpoint, parabéns de novo. Lucas Spadano.
Tangará da Serra - Mato Grosso - Consultor técnico
postado em 16/09/2010
Prezado Lucas,
Obrigado pela mensagem. Sou filho de pequeno produtor de leite. Infelizmente minhas atividades acadêmicas durante o mestrado, doutorado e pós-doutorado me deixaram distante das fazendas, mas procuro estar sempre em sintonia com as necessidades do campo. Um grande abraço!
Lorena - São Paulo - Produção de leite (de vaca)
postado em 23/09/2010
Parabens pela materia nos estamos comecando nossa lida com gado de leite, e essas materia nos da uma nocao de como fazer essa silagem eu queria saber se eu posso complementar algo no meio do campim se vc poder passar algumas dica eu agradeco sua colaboracao.
Curitiba - Paraná - Produção de leite (de vaca)
postado em 24/09/2010
Existe um tempo determinado para se abrir o silo, logo após a ensilagem e fechamento do silo, estou falando de silagem de milho.
E qual o tempo máximo que pode durar a silagem fechada com boa qualidade, estou falando de silgam de milho.
Tangará da Serra - Mato Grosso - Consultor técnico
postado em 24/10/2010
Prezado Bruno,
Para se ter uma boa silagem são necessários teores mínimos de alguns componentes que não limitem a atuação das bacterias que irão realizar a fermentação. Então, dependendo do estágio do capim, as vezes é necessário acrescentar algo para reduzir (acertar) o teor de matéria seca, as vezes para aumentar a concentração energética ou proteica, e assim por adiante. Isso vai depender de caso para caso...
Tangará da Serra - Mato Grosso - Consultor técnico
postado em 24/10/2010
Prezado Claudinei,
Pelo menos 45 dias para a abertura, dois meses se puder. Quanto a validade, para silos bem feitos, ele vai suportar uma abertura e uma retirada de 15 centímetros de perfil e não vai estragar até que seja totalmente consumido, nem que isso leve mais de um ou dois meses.
Vista Alegre do Prata - Rio Grande do Sul - Produção de leite (de vaca)
postado em 28/10/2010
comprei feno de azevem e de alfafa.Queria saber qual e melho para produzir leite.Queria saber quanto % posso pagar de diferença entre o feno de alfafa e o de azevem
Tangará da Serra - Mato Grosso - Consultor técnico
postado em 12/11/2010
Prezado Abel,
Caso utilize dieta balanceada, bastará verificar a composição bromatológica dos fenos e fazer os devidos ajustes nutricionais. Caso não utilize um programa de balanceamento, forneça em até 20% do consumto total de alimentos e verifique o comportamento ingestivo e produtivo dos animais. Se puder fazer uma análise da composição do leite, os teores de gordura, proteína verdadeira e uréia do leite são bons parâmetros para avaliar o perfil nutricional de vacas leiteiras.
Curitiba - Paraná - empresario
postado em 18/02/2012
OLA SR° JUNIOR CESAR !
1 ° Qual o tempo de validade de silagem de milho , p/ silos q. nunca foram abertos ?
2° Qual a validade da silagem ,após retirada do silo e colocada no cocho, p/ o animal comer?
( pode ser colocada de 1 dia p/ o outro ? Certa porção em cocho limpo e s/ residuos anteriores ? cochos plasticos?
GIL Curitiba -Pr , FUTURO INICIANTE Á PRODUTOR DE LEITE DE VACA ,em castro-Pr
Tangará da Serra - Mato Grosso - Consultor técnico
postado em 23/02/2012
Prezado Gilvando,
Desde que completamente vedado, a silagem poderá permanecer dentro do silo por um longo período, pois uma vez estabilizada a massa ali confinada, ela não irá se alterar desde que não haja entrada de microrganismos ou ar ou humidade ou uma fonte de calor.
Por outro lado, uma vez aberto o silo, este deverá ser completamente utilizado, deverá ser descarregado de forma correta e a silagem colocada no cocho para os animais deverão ser retiradas no dia seguinte. Uma estratégia é reutilizar as sobras, misturando-as com concentrado e fornecendo para categorias animais menos exigentes.
Últimas Atualizações
» Parlamentares ligados à agricultura defendem Código Florestal
» Diferimento estratégico da pastagem
» Europa: Mercado leiteiro enfrenta crise
» Argentina: Trabalhadores da DPA fazem protesto
» Sucessão familiar na agropecuária: curso online tratará deste tema em julho
» 1° Mini Fórum de Aplicação de Ingredientes Funcionais: Produtos Lácteos
» gDT: Nova queda, leite em pó integral fecha a US$ 2546/tonelada












Luciano M. Redu
CANDIDO GODOI - Rio Grande do Sul - Produção de leite (de vaca)
postado em 01/09/2010
boa tarde junio!
parabens pelo artigo e pela maneira didatica com que voce escreve sobre assunto.
gostaria de te questionar: quais os % aceitaveis de ac.acetico,ac.propionico e ac.butirico ,no que se refere a uma analise de silagem normal?
existe muita discussão em relação ao tamanho de particula na silagem,gostaria de ter sua opinião.e qual o % de silagem aceito com tamanho acima deste padrão normal?
grato pela atenção!!
um abraço!
luciano