Implicações da utilização de cruzamentos em gado de leite

 

A produtividade dos sistemas de produção de leite em áreas de clima tropical, como o Brasil, é tipicamente baixa em todo o mundo, quando comparada aos sistemas de clima temperado como parte dos EUA e outros países. Essa falta de eficiência se dá por muitos aspectos, dentre eles estão o manejo nutricional, reprodutivo e sanitário inadequados, aliado ao limitado potencial genético dos rebanhos e condições climáticas adversas. Assim, criadores de países tropicais têm importado animais de raças europeias, com o objetivo de melhorar ou substituir os animais nativos e com isso atender à demanda de produção de leite. Porém, o desempenho dos animais importados tem sido muito variável: os animais têm "potencial", mas a sua produção e sobrevivência dependem do nível de estresse provocado pelo meio ambiente em que serão inseridos.

Em busca da melhoria da produtividade destes sistemas, os cruzamentos entre raças europeias e zebuínas assumem grande importância, sendo amplamente utilizados para melhorar a produção de leite e a eficiência reprodutiva e adaptativa em ambientes tropicais e subtropicais. Fundamentalmente, o principal objetivo deste tipo de cruzamento é utilizar-se da expressão da heterose e da complementariedade de raças divergentes para a obtenção de animais mais adaptados e produtivos sob tais condições. Vale lembrar que a heterose é o fenômeno pelo qual os indivíduos resultantes dos cruzamentos apresentam desempenhos superiores ao desempenho médio dos pais de raças puras. Uma das finalidades da sua utilização é reunir em um só tipo biológico as características desejáveis de duas ou mais raças, como a rusticidade das raças zebuínas e o potencial de produção das raças europeias.

Ressalta-se ainda que a heterose para a produção de leite é importante em cruzamentos de raças zebuínas e europeias, apresentando valores médios que variam de 28 a 17,3%. Embora em menor magnitude, a heterose é também importante para características reprodutivas e adaptativas, com valores médios de 5,8% para duração da lactação, 11% para idade ao primeiro parto e 9% para intervalos de parto. Estes ganhos genéticos não podem ser igualados por processos seletivos após poucas gerações.

Não obstante, no Brasil, a maior parte da produção de leite é oriunda da utilização de mestiços de raças europeias e zebuínas. Entretanto, os cruzamentos geralmente não são sistematizados, levando a uma grande diversidade de frações raciais e grupos genéticos nos rebanhos, o que dificulta a aplicação de práticas de manejo e alimentação adequadas. A forma mais comum utilizada pelos criadores é o uso de touros da raça Holandesa por um período e quando surgem animais pouco rústicos, retornam com touros de raças zebuínas como Gir e Guzerá. Devido a isso, a avaliação dos cruzamentos e a definição de esquemas apropriados para cada tipo de sistema de produção podem ser muito úteis. Dentre os mestiços, os Holandeses x Gir ocupam posição de destaque.

Em estudos conduzidos no Brasil, nas décadas de 80 e 90, foram obtidos resultados para idade e peso à puberdade e idade à primeira concepção. Os animais da geração F1 (primeira geração do cruzamento de animais de raça pura, conhecidos vulgarmente como animais "meio-sangue") obtiveram melhores desempenhos para tais características. Quando se analisou o intervalo de partos, os animais F1 obtiveram melhores resultados quando submetidos a sistemas de produção de baixo nível de manejo, apresentando também maior precocidade e peso ao início da vida reprodutiva. Adicionalmente, os animais 5/8 HZ apresentaram melhor desempenho em fazendas mais tecnificadas.

Foram estudadas também infestações por bernes, carrapatos e endoparasitos intestinais, verificando-se maiores infestações em animais com maiores porcentagens de genes de Holandês. A resistência atribuída pelo Zebu, aliada a outros atributos relativos à adaptação ao clima tropical, estabelece uma das justificativas para sua utilização em cruzamentos. Na Tabela 1 são apresentados dados referentes à produção de leite, gordura e proteína em seis grupos genéticos estudados.

Tabela 1. Características de primeira lactação, em animais de diferentes grupos genéticos (GG) Holandês-Zebu, em fazendas de dois níveis de manejo.

Clique na imagem para ampliá-la.

Num estudo com cinco grupos genéticos de Holandês e Gir (Freitas et al. 2001), (1/2 HG (F1), 3/4 HG, 7/8 HG, 15/16 HG e 31/32 HG), os melhores desempenhos para produção de leite, de gordura e duração da lactação foi observado para o grupo 31/32 HG, 18, 17 e 10% a mais, respectivamente, em relação ao grupo 1/2 HG. Esses resultados diferiram dos relatados por MADALENA et al. (1989) que verificaram melhor desempenho produtivo em vacas 1/2 HG quando o nível de manejo foi baixo, e não diferiram quando o nível de manejo foi considerado alto. Uma provável explicação para essa diferença pode ser atribuída à qualidade genética dos rebanhos e à melhoria das condições de alimentação e manejo ocorridas na última década. FACÓ et al. (2002), observando o comportamento de diversos grupos Holandês x Gir no Brasil, verificaram que não há benefício em elevar a proporção de genes da raça Holandesa em condições ambientais mais hostis. Entretanto, para as condições de manejo mais favoráveis, tal elevação tem indícios favoráveis para o incremento da produção.

Em outros países, tradicionalmente grandes produtores de leite, verifica-se também a utilização de cruzamentos, mas são realizados entre raças européias. Nos EUA, mais de 95% do rebanho é composto por raças puras, especialmente a Holandesa, entretanto, alguns estudos têm sido realizados com o objetivo de se elevar o rendimento por lactação, sobrevivência e características reprodutivas. Analisando a produção por vaca/ano, os cruzados excederam os puros em 11,4%. Na Nova Zelândia, cruzados Holandês x Jersey superaram o Holandês em porcentagem de gordura. Mais recentemente, outros estudos mostraram melhoras na produção de leite, gordura, proteína e reduzida idade ao primeiro parto, além de maior sucesso na taxa de prenhez de vacas inseminadas artificialmente. Na Alemanha, por exemplo, os cruzamentos deram origem a uma nova raça sintética, chamada Schwarzbuntes Milchrind der DDR (SMR), sendo esta uma raça composta originada dos cruzamentos de três raças, incluindo uma nativa, Jersey e Holandesa.

Finalmente, os cruzamentos não têm sido amplamente utilizados nos sistemas produtivos leiteiros de países desenvolvidos, exceto na Nova Zelândia. Entretanto, a Dinamarca e alguns outros países mostram-se interessados nos sistemas de cruzamentos para vacas leiteiras.

Uma das principais razões para o uso restrito e pequena utilização de animais cruzados é a dificuldade e escassez de avaliações genéticas específicas, que apenas são conduzidas em países como Dinamarca e Holanda, o que não tem sido realizado nos Estados Unidos, que contempla apenas avaliações de raças puras.

Referências:

FACÓ, O.; LOBO, R.N.B.; MARTINS FILHO, R. et al. R.Bras. Zootec., v.31, n.5, p. 1944-1952, 2002.
FREITAS, M.S., DURÃES M.C., FREITAS, A.F. et al. Arq. Bras. Med. Vet. e Zootec. v.53, n.6, p.708-713, 2001.
MADALENA, F.E. R. Bras. Genética, v.12, supplemento, p.183-220, 1989.
MADALENA, F.E.; TEODORO, L.R.; LEMOS, A.M. J.Dairy Sci., v.73, p.1887-1901, 1990.
TEODORO, R.L. et al. Cruzamentos. In.: VALENTE, J.; DURÃES, M.C.; MARTINEZ, M.L.; TEIXEIRA, M.N. Melhoramento genético de bovinos de leite. Juiz de Fora: EMBRAPA, 2001, Cap 5. p. 89-104.

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Comentários:

Jose Teixeira Pires

Santarém - Pará - Produção de gado de leite
postado em 24/08/2009

faço cruzamento em gado de leite a 10 anos com a raça Braunvieh Original da Suiça. Meio sangue holandes e meio sangue braunvieh e alem de criar PO Braunvieh Puro.
Nosso calor é de 35 grau celsius e não tenho problema de estresse calorico nem com a raça pura(Braunvieh).
Na meio sangue (50%holandesa + 50%gir) faço inseminação com o Braunvieh Original (touro Rampas -Semex) resultando num cruzamento composto muito interesante(82% heterose), porque não tenho estresse calorico e problema de intervalo entre partos. Porque com a 3/4hol aqui é um grande problema.

Sidney Lacerda Marcelino do Carmo

Belo Horizonte - Minas Gerais - Instituições governamentais
postado em 08/09/2009

Prezado Gerson,

O bom seríamos se tivéssemos um pesquisa incluindo o 1/2 (jersolândia) na pesquisa quanto ao nível tecnológico de manejo(baixo e alto) para termos um informação extra.



Grato

Sidney

Aline Zampar

Piracicaba - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 14/09/2009

Prezado José Teixeira Pires,
Agradeço a mensagem e a contribuição que nos é dada com o seu exemplo.

Atenciosamente,

Aline Zampar

Aline Zampar

Piracicaba - São Paulo - Pesquisa/ensino
postado em 14/09/2009

Prezado Sidney Lacerda Marcelino do Carmo,

No Brasil não há trabalhos científicos que mencionem o "jersolando", porém, em países como os Estados Unidos e Nova Zelândia, o cruzamento entre Jersey e Holandês já vem sendo utilizado. Porém, nenhum deles trata do nível tecnológico empregado, mas provavelmente, como países sabidamente grandes produtores de leite, utilizam-se de nível alto.

Um trabalho de 2008 conduzido nos EUA menciona que a produção de gordura no leite não teve diferença significativa entre o "jersolando" e Holandês, mas que o cruzado obteve menor produção de leite e proteína que o Holandês.

Porém, na Nova Zelândia, muitos estudos têm avaliado os benefícios no cruzamento das duas raças em sistema a pasto. Estudo de 1991 menciona que apenas a produção de gordura é superior em animais cruzados. Já em uma pesquisa de 2007, os animais Jersey-Holandês possuem maiores teores de gordura e proteína, quando comparados com animais puros Holandês.

No Brasil, a Embrapa Gado de Leite realizou um experimento em que foram acasaladas vacas girolando com touros Jersey e Holandês. A duração da lactação e a produção de leite por lactação foram maiores nas filhas de touros holandeses que nas filhas de Jersey, porém, as filhas de Jersey apresentaram maiores teores de gordura e proteína (http://www.fernandomadalena.com/site_arquivos/836.pdf).

Atenciosamente,

Aline Zampar

Sidney Lacerda Marcelino do Carmo

Belo Horizonte - Minas Gerais - Instituições governamentais
postado em 16/09/2009

Prezada Aline Zampar,

Muito obrigado pelas informacoes, mas vc tem alguma informacao com relacao a lucratividade?

Grato,

Sidney

Alfredo Dias

Quiririm - São Paulo - Produção de leite (de vaca)
postado em 24/09/2009

Os Estados Unidos tem feito estudos com cruzamentos, a revista Hoard´s Dairymen tem apresentado de tempos em tempos a situação de alguns estudos. Informações também podem ser encontradas no site:
http://www.extension.org/pages/Dairy_Crossbreeding:_Results_from_New_Research_and_Information_Still_Needed
Vária universidades americanas tem feito estudos com cruzamentos entre raças diferentes, porém, os resultados apresentados ainda não favorecem o uso mais amplo deste recurso.

Alexey Heronville Gonçalves da Silva

Jataí - Goiás - Consultoria/extensão
postado em 09/10/2009

Acho que pesquisas sérias, isentas de viés mercantilista, profundas e extensas no tempo e no espaço, deveriam ser realizadas no tocante ao cruzamento Jersey e Holandês no Brasil Central. Pois o que observo em meu dia-a-dia profissional é que o que está ocorrendo é um extremo esforço em tentar achar um cruzamento milagroso que a meu ver está mais para mentiroso e mercantilista, que num futuro não muito distante trará sérios impactos numa cadeia já combalida como a leiteira daqui do Sudoeste Goiano.

Lucas Eduardo Tomasi

Vila Maria - Rio Grande do Sul - Produção de leite (de vaca)
postado em 18/03/2011

Primeiramente gostaria de parabenizala pela publicação do artigo, gostaria de salientar e também saber a sua opinião, sobre minha colocação frente a utilização de cruzamentos.
Na Nova Zelandia, como também no Brasil espicificamente no sudeste brasileiro é utilizado, vamos dizer de forma frequente o cruzamento seja ele com objetivo de obter maiores concentrações de solidos totais na produção, como também melhor conforto termico devido a rusticidade que se obtem com o cruzamento.
Muito bem mas uma coisa que se deve ter em conta é que o governo está exigindo que os animais das fazendas sejam registradas para ter um melhor controle populacionale genetico, bem como também para conceguir financiamentos para o produtor de leite e a utilização de cruzamentos de conra partida nao tem no momento associações que façam o registros dos animais cruzados, pois eles seriam teoricamente reconhecidos como animais de origem desconhecida, na minhã opinião esse é um dos varios pontos negativos que o cruzamento trás para os produtores de leite, respeitando todos aqueles que utilkizam o cruzamento como uma ferramente de melhorar os indices da fazenda.
obrigado pela atenção
abraços

marcelo erthal pires

Bom Jardim - Rio de Janeiro - Produção de leite (de vaca)
postado em 18/03/2011

Prezado Alexey Heronville,

Muita lúcidez em sua postagem, coloco só em separado a região Sul para lançar mão de um cruzamento Taurino x Taurino, mesmo assim para lá creio muito mais no Ayrshire, Normando, Guernsey o Sueco Vermelho, para não virar criador de "guabirú"(machinhos Jersolando qua a única serventia que vejo, é para se fazer Rufiões) isto no caso de querer criar cruzados, mas o clima lá permite a criação do estress calórico. O

Girolando, nos seus diversos graus de sangue, para atender dos manejos dos mais rústicos até o os sofisticados com gado 7/8. os Australianos nas regiões trópicai tem o cruzamento do Sahiwal(indicus) x Holandês, estes (australianos) tem uma raça que se fosse colocada com o girolando poderia fazer um excepcional Tricross, estou falando da seleção natural Illawarra, começada a sua formação nos primordios do século XIX, com o livro de registro estabelecido em 1930 ....

Mas podesse criar preás também; pois comem pouco e dão pouco leite também ...
um grande abraço
marcelo

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