Usando-se critérios econômicos, a pecuária de leite é considerada uma atividade ruim no Brasil. Temos visto, nos últimos anos, uma quantidade considerável de liquidações de rebanhos, principalmente no Estado de São Paulo, tendo-se, como justificativa para tanto, a questão econômica. Boa parte destas empresas tem como proprietários pessoas de sucesso em outras atividades e com capital suficiente para terem grandes produções diárias, animais de bom potencial genético, benfeitorias de conforto razoável e mão de obra considerada qualificada. Mesmo assim, não obtém sucesso financeiro na atividade.
Uma das causas é devido a que a pecuária de leite encontra-se, como negócio, em um estágio inicial de desenvolvimento no Brasil. Seus clientes não conseguem diferenciar a qualidade dos produtos da atividade, possuem baixo poder aquisitivo e não os valorizam como alimentos saborosos. Muitas indústrias, por outro lado, procuram satisfazer as necessidades de seus clientes e, para tanto, não exigem qualidade de seus fornecedores, nivelando por baixo o preço do leite. Isto leva a distorções importantes no segmento produtivo, abrindo espaço para produtores não profissionais, safristas, que não investem na atividade e que aceitam preços irrisórios por possuírem custos de produção menores. Como conseqüência, os produtores profissionais ficam desestimulados em investir, melhorar a qualidade do produto e aumentar a produtividade.
As perspectivas são, no entanto, boas. O Governo Federal aprovou o Plano Nacional de Melhoria da Pecuária de Leite que prevê, entre outras ações, padrões mínimos de qualidade superiores aos atuais, exigindo análises de células somáticas, contagem bacteriana, presença de antibióticos, que certamente elevarão a qualidade da matéria prima e farão com que o consumidor, quando se vir frente a um produto melhor, consiga reconhecê-lo e passe a exigir mais qualidade, como aconteceu com a indústria automobilística no governo do Presidente Collor.
Todos estes problemas são importantes e decisivos na viabilidade do negócio, porém fogem ao controle do indivíduo ou, em outras palavras, não estão no círculo de influência do produtor.
Dentro do círculo de influência do produtor há de se considerar a possibilidade do mau gerenciamento da atividade interferindo no seu sucesso financeiro. Basta, para tanto, considerarmos somente um aspecto para atestarmos que o problema gerencial é um fato - o das perdas. É comum ouvirmos que o custo da silagem de milho é da ordem de $40,00 a $45,00 reais por tonelada. Estes custos são calculados levando-se em conta a estimativa do que foi colocado no silo. Na realidade temos observado que o custo é muito mais alto do que este devido às perdas que ocorrem no processo de ensilagem e no fornecimento do alimento aos animais. Somente devido ao processo de fermentação, em boas condições, a perda é de 12% da matéria original, ou seja, se armazenamos 100 toneladas de matéria original, estaremos perdendo 12 toneladas, o que elevaria o custo da silagem a ser fornecida para $44,80 a $ 50,40 reais por tonelada. O que temos observado, na realidade, é uma perda bem maior, chegando a elevar este valor para $55,00 ou $60,00 reais. Que empresa pode ter sucesso financeiro se perde cerca de 50% do que produz?
Estas perdas podem ser minimizadas e a produtividade aumentada se forem adotadas práticas gerenciais adequadas. Estas práticas são utilizadas há muito tempo na indústria, desde a segunda guerra mundial, e constituem o que chamamos hoje "Procedimentos de Gestão pela Qualidade Total".
Tais "procedimentos" foram adaptados e implantados na Fazenda Colorado, em Araras, desde 1995 e deram origem ao "Sistema MDA de Gestão de Empresas Produtoras de Leite". Como reflexo, obteve-se um aumento considerável na produtividade da empresa; enquanto que, em 1995, eram produzidos 6.500 litros por dia com 350 vacas, hoje, produz-se 20.000 litros com 600 animais; quanto à eficiência da mão de obra, o número de matrizes por empregado subiu de 13,6 para 20,3 e o custo de alimentação dos animais, por litro de leite, reduziu-se em 35%.
A implantação deste trabalho consistiu inicialmente de uma avaliação dos recursos disponíveis (animais, homens, instalações, máquinas e terra) e da identificação dos pontos fracos, fortes, ameaças e oportunidades. De posse destas informações definiu-se o negócio, o produto, e seus clientes com suas necessidades, ou seja, a missão, visão e valores da empresa, com conseqüentes políticas básicas (objetivos de longo prazo, estratégia). A seguir, foi reestruturada a área de recursos humanos, com um novo organograma e definição de funções e responsabilidades para, posteriormente, implantar-se o programa de treinamento de empregados. Para tanto, foram elaborados os fluxogramas dos processos e escritos os protocolos operacionais das fases críticas. Posteriormente foram definidos os indicadores de resultado e de tendência de cada produto. Paralelamente a isto, foi implantado um sistema de informações contábeis e técnicos para dar suporte às decisões.
Atualmente dispõe-se de dados zootécnicos e financeiros que permitem a elaboração anual do planejamento estratégico, quando são definidas as políticas de melhoria para o ano e são estabelecidas as metas a serem atingidas e os investimentos a serem realizados no período.
Todas estas práticas foram conseguidas porque, em primeiro lugar, a alta administração se comprometeu a implantá-las e, em seguida, estimulou o plano de treinamento dos funcionários para assumirem responsabilidades, com autoridade, dentro de suas áreas de atuação, o que os comprometeu com a empresa. Hoje os funcionários são conscientes de que são mais donos da empresa do que o próprio dono, pois dependem mais dela do que o proprietário.
Como exemplo deste aspecto pode-se observar o gráfico abaixo que mostra a atuação dos funcionários. As porcentagens referem-se a quantidade de tarefas corretas (conformes) previstas para serem realizadas no mês. Observa-se que no início do ano as conformidades giravam ao redor de 70% e, no final, estavam acima de 95%. Como resultado a produção média por vaca no período chegou em alguns meses a 38 kg, com 620 animais em lactação.

Os conceitos desenvolvidos no Sistema MDA serão transmitidos aos usuários do site MilkPoint nos próximos textos.
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1Prof. Dr. Paulo Fernando Machado, Eng. Agrônomo
2Laerte Dagher Cassoli
Eng. Agrônomo, Gerente Técnico
3Sérgio Soriano, Médico Veterinário, Gerente de Pecuária