Fazenda Monjolo Velho

Martinho Campos / MG

A fazenda Monjolo Velho, localizada em Martinho Campos (MG) é um exemplo de tradição na atividade leiteira. Desde 1908 a família Gontijo produz leite. De geração em geração. Pai para filho. Foi justamente a questão da tradição familiar que motivou o engenheiro civil, Ronaldo Valadares Gontijo, empresário do ramo de construção civil em Belo Horizonte a assumir a coordenação dos negócios e projeto de produção de leite em larga escala. A meta final do projeto em implantação é produzir 30.000 litros de leite por dia com 2000 a 2500 vacas em lactação. Em 1995 a produção de leite na fazenda era de 800 litros por dia. O rebanho da fazenda é girolando e totalmente formado na fazenda. Hoje são produzidos 14.000 litros por dia em 2 ordenhas, com 733 vacas em lactação de um total de 1.800 cabeças.

Além do leite como atividade principal, a fazenda trabalha com agricultura, produzindo grãos (milho, soja, feijão) e cana-de-açúcar. De um total de 2.100 ha em diferentes glebas de terra próximas a Monjolo Velho, 856 ha são destinados para produção de leite. Destes, 600 ha são destinados a produção de forragens, sendo 300 ha sob pivô central. As forrageiras conservadas produzidas são: silagens de milho, capim e cana, perfazendo um volume anual de 4.000 toneladas anuais.

Devido os negócios e projetos envolvendo a construção civil, na capital mineira, Ronaldo costuma visitar e acompanhar as atividades da fazenda aos finais de semana. No dia-a-dia, conta com uma personalidade ímpar no setor, Marcelo Mesquita, seu cunhado, popularmente conhecido na região e por todos na fazenda como “Batata”. Marcelo é quem está à frente de todas as atividades da fazenda, sendo um grande parceiro. Profundo conhecedor de vacas, Marcelo, que não chegou a concluir sua graduação, também em engenharia civil, é um apaixonado pelo que faz. Todos os dias está na propriedade por volta das 5:00 a.m., retornando para casa muitas vezes às 8:00, 9:00 p.m.. A rotina é puxada, mas a demanda é muito grande. Ao ser indagado se não seria extenuante trabalhar dessa forma, respondeu: “imagina, sem problemas! É corrido, mas é assim mesmo. Não tem jeito, tocamos sem problemas e eu vivo isso 24 horas, se necessário”. Na fazenda, praticamente, todas as atividades são realizadas ou comandadas por Marcelo. Desde o abastecimento de dados no softwares de gerenciamento de rebanho a atividades práticas envolvendo o manejo como casqueamento de animais, inseminação artificial, vacinações, aplicações de BST e demais atividades envolvendo a reprodução e manejo sanitário dos animais. A fazenda não conta com consultores independentes na área agronômica e veterinária, trabalhando com o suporte técnico de empresas parceiras, como DeLaval, MSD, Semex, Itambé, Monsanto, entre outras.

O sistema de produção da fazenda é de semi-confinamento. A alimentação dos animais em produção é fornecida no cocho em 3 a 4 tratos/dia em diferentes quantidades (volumoso + concentrado), de acordo com cada lote em produção e período do ano. Os animais são alimentados em galpões cobertos com piso concretado e descansam em piquetes menores, nos intervalos entre tratos, anexos aos mesmos. Todo o sistema de lavagem dos galpões da propriedade é automatizado por meio de flushing (consumindo 150.000L/dia) e direcionado para uma unidade de separação e tratamento de dejetos. A parte sólida é usada na lavoura e adubação de pastagens. O esterco sólido é armazenado, sendo adicionado gesso agrícola e resíduos de alimentos, dando origem a composto orgânico. A fração líquida (chorume) vai para uma lagoa de decantação e também é utilizado como adubação orgânica. No futuro a fazenda tem intenção em trabalhar também com biogás a partir da sua lagoa de decantação.

Para atingir a produção de 30.000 litros por dia o sistema de produção atual será modificado. A estrutura atual de cochos será aproveitada, para suplementação das vacas em produção após cada ordenha. Posteriormente, após receberem a suplementação (volumoso e concentrado) irão para pastejo rotacionado irrigado, debaixo de pivô central, totalizando 200 ha. O objetivo da migração do regime atual para o pastejo é promover redução significativa dos custos de produção. Segundo os gestores, a exploração intensiva das pastagens permitirá reduzirá a quantidade de volumoso suplementar utilizada (silagem).

Além da atividade leiteira a fazenda trabalha com agricultura voltada para comercialização de grãos que também são aproveitados como matéria-prima para concentrados (farelo de milho e soja).

Em 2012 foram produzidos 2.120.000 litros (média de 5808 litros/dia), com média de 400 vacas em produção. A expectativa para 2013 é atingir 4.500.000 litros, com média acima de 12.000 litros/dia e 800 fêmeas em lactação.

Atualmente a fazenda trabalha com média de CCS 390.585/mL e CBT 32.101 UFC/mL e tem como meta para 2013 atingir CCS inferior a 100.000/mL e CBT inferior a 10.000 UFC/mL. Com o programa de remuneração por qualidade tem obtido bonificação média de 0,17/L e a rentabilidade média da atividade em 2012 foi de 15%.

O projeto Porteira Adentro é uma iniciativa do MilkPoint, patrocinada pelo programa Maxi-Leite, da MSD Saúde Animal.

Texto: João Paulo V. Alves dos Santos, engenheiro agrônomo e produtor de leite

A produção de leite da Monjolo Velho é obtida a partir de 2 ordenhas diárias, em linha média de 36 postos. Os animais em produção são totalmente controlados com registro diário da produção individual por meio de bolus intra-ruminal. As dietas são misturadas em vagões misturadores, total-mix, com balança programável nos cochos, estrategicamente construídos próximos a unidade de ordenha. Os animais são divididos em 4 lotes, sendo 2 lotes para primíparas, um lote para vacas em outro para animais com estágio mais avançado de lactação.

A suplementação para vacas em produção é composta por dieta com silagem de milho e concentrado (misturado/batido na fazenda em fábrica de ração com capacidade de processamento de até 10 toneladas/hora). Durante 120 dias (período da seca) o gado recebe somente suplementação (volumoso + concentrado) no cocho. Nos demais 245 dias a produção é também direcionada para o pastejo, com menores quantidades fornecidas de volumoso e concentrado. Os lotes são organizados de acordo com média de produção e a quantidade de suplemento oferecida varia de acordo com os índices produtivos.

O projeto de pastejo da fazenda engloba uma área de 200 ha de mombaça ao todo, em 2 pivôs, cada um com 100 piquetes de 2 ha. O objetivo do projeto é trabalhar com uma taxa de lotação média de 10 UA/ha. Para obtenção destes índices é realizada calagem, anualmente, de acordo com análise de solo. De acordo com levantamentos dos últimos anos, com o uso da adubação orgânica através do composto produzido na fazenda, será possível reduzir em 40% a quantidade de fertilizantes químicos tradicionais.

A produtividade das forrageiras na Monjolo Velho é bastante alta. O solo foi corrigido ao longo dos anos nas áreas agriculturáveis apresentando uma saturação por bases superior a 65% e teor de fósforo superior a 17 ppm .. A produtividade média das áreas de milho tem sido superior a 70 ton de MO/ha nas áreas irrigadas. A produtividade média de milho grão da fazenda é de 9.600 kg/ha (160 sacos/ha) e a de soja tem sido ao redor de 3.000 kg/ha (50 sacos/ha). Para armazenamento de grãos a propriedade conta com 2 silos com capacidade de 10.000 sacos/cada.

O rebanho da Monjolo Velho foi formado na própria propriedade, com compra de poucas cabeças no início da atividade. Para impor a taxa de crescimento do rebanho, a reprodução é trabalhada com seriedade e todas as ferramentas de manejo reprodutivo possíveis para maximizar os índices são utilizadas, como inseminação artificial em tempo fixo (IATF) e transferência de embriões (TE). Em 2012 foram 450 partos e 700 inseminações, com custo médio por dose de sêmen de R$25,00. Ao todo, no mesmo ano foram realizadas 120 transferências de embrião com custo médio/transferência de R$500,00.

Para poder alcançar volume expressivo em produção de leite a fazenda investiu na criação de bezerras com implantação de sistema automático de aleitamento e concentrado para bezerras (calf-feeder). Foram adquiridas 4 máquinas com 2 bicos alimentadores cada, com capacidade para 25 bezerras, ou seja, 50 animais/máquina. A quantidade e freqüência de alimentação de cada bezerra é controlada, individualmente, por meio de chip na forma de brinco. Cada máquina/alimentador tem uma pequena central eletrônica que coleta e armazena dados de cada animal. Tudo é controlado e gerenciado por Marcelo. Com o calf-feeder é possível disponibilizar a quantidade de leite a ser fornecida para cada bezerra, programando o alimentador automático. Por meio de “pen-drive” é possível transferir os dados de cada aparelho para o software que controla o rebanho e vice-versa. Dessa forma, o controle das bezerras é muito maior. “É possível monitorarmos diariamente o quanto cada bezerra consumiu de leite e ração por dia e se alguma deixou de consumir o predicado, direcionamos uma atenção especial ao animal”. Marcelo considera o sistema automático de alimentação uma grande inovação tecnológica, mas que requer grandes cuidados para adequado e pleno funcionamento como uma boa higienização e lavagem dos componentes do equipamento e cuidado com o leite fornecido. Na Monjolo Velho, um pequeno tanque de expansão de 150 litros foi instalado no meio do bezerreiro, junto às máquinas (alimentadores) para armazenamento do leite usado para bezerras (50% de sucedâneo + 50% leite de descarte, misturados), com adapatação e sistema de abastecimento direto, individual para cada equipamento/alimentador. Com estes cuidados, a mortalidade na fazenda é inferior a 2% ao ano.

Na fazenda, a criação de bezerras não segue práticas usuais como desmame precoce. Nos primeiros 90 dias são fornecidos em média 6 litros por bezerra/dia e a desmama costuma ser realizada entre 140 a 150 dias. Para Marcelo, investir e cuidar dos animais jovens, principalmente nos meses iniciais de vida das bezerras é a chave do sucesso para o crescimento de qualquer sistema de produção.

O armazenamento de leite da propriedade é feito em 6 tanques horizontais refrigeradores: 2 tanques de 10.000 litros, 1 tanque de 8.500 litros, 1 de 6.500 litros, 1 de 4.500 litros e um de 1.700 litros, totalizando capacidade de armazenamento de 41.200 litros.

O projeto Porteira Adentro é uma iniciativa do MilkPoint, patrocinada pelo programa Maxi-Leite, da MSD Saúde Animal.

Texto: João Paulo V. Alves dos Santos, engenheiro agrônomo e produtor de leite

A Monjolo Velho é segmentada em 2 atividades: produção de leite e agricultura, com Marcelo Mesquita no comando e gerência de todas as atividades e setores. Na atividade leiteira, a equipe é composta por 30 funcionários. O sistema de produção de leite conta com o apoio de Leandro Silva, técnico agrícola responsável pelo manejo dos animais e de Lucas Tavares, estagiário e estudante de veterinária da Unipac/Bom Despacho que supervisionam as atividades envolvendo a ordenha, alimentação do rebanho (nutrição) e manejo reprodutivo. Trabalham com consultoria na reprodução, através do médico veterinário Eduardo Amaral, ao passo que a nutrição é realizada por Wagner Speziali Caldas, da Improveter.

Na fazenda, Marcelo é incisivo e atuante em todas as áreas. Da agricultura à sala de ordenha. “Tudo passa pela minha mão”. Literalmente todos os relatórios e abastecimento de dados do software de gerenciamento do rebanho são realizados pela sua pessoa. “É a maneira de eu me aproximar dos animais, de saber o que está acontecendo com cada vaca... de sentir o rebanho. Se eu não monitorasse e lançasse os dados, não teria esse controle. E eu adoro isso!”.

Para controle da qualidade do leite monitoram a CCS e CBT individual com a Clínica do Leite/ESALQ-USP e também pelas análises da Itambé, empresa para qual comercializam o leite, com coletas a cada 2 dias.

A produção agrícola é gerenciada por Enes Fialho, responsável pelo plantio, produção de grãos, silagem e armazenamento de grãos.

Ronaldo Valadares Gontijo, o proprietário idealizador, é supervisor e coordenador dos projetos em andamento na propriedade, trabalhando em conjunto e parceria com Marcelo, o responsável pela manutenção e execução dos trabalhos.

A gestão da mão-de-obra, na propriedade é diferenciada. Anexo à unidade de produção encontramos sala de treinamento, vestiário com armários e chuveiros. Os funcionários trabalham uniformizados. Intervalos são pré-estabelecidos e pausas são complementadas com lanches, café, bolo e leite (claro) à vontade disponibilizado em refeitório. Os turnos de trabalhos são divididos em duas equipes. A equipe de ordenha é um destacamento especial e independente, com carro próprio para este grupo específico para transporte. Quando um turno de ordenha acaba, com todas as rotinas finalizadas (como lavagem do barracão e equipamentos), a equipe entra no “carro da ordenha” e parte para a cidade. O mesmo veículo fica é direcionado e disponibilizado para a equipe do turno subseqüente. Segundo Marcelo, são premissas e detalhes mínimos como este que garantem a dignidade, compromisso e satisfação do grupo que trabalha na fazenda. Para os demais trabalhadores há um ônibus com horários específicos para o transporte de trabalhadores entre fazenda e cidade.

A fazenda Monjolo Velho pode ser caracterizada como um exemplo de esforço, obstinação e força de vontade para implantação e obtenção de resultados previamente planejados.

Quando visitamos propriedades, é comum escutarmos diferentes planos e projetos que acabam virando histórias ou tentativas, ficando sempre a ideia ou conceito do: “quando atingirmos” ou “quando conseguirmos”. Na Monjolo Velho, de história, apenas a tradição leiteira da família. Apesar de estarem na atividade há muitos anos o presente projeto, visando 30.000 litros/dia, é recente. Em andamento há 2,5 anos conseguiram atingir a produção diária de 14.000 litros/dia. Pergunta: quantas fazendas no Brasil atingiram essa produção em período tão curto de tempo? Conversando com Marcelo cheguei a indagar: “Serão mesmo 30.000 litros?”. Ele completou, com ânimo e naturalidade “É, pode escrever. E será até 2015. Nós vamos fazer isso. Vamos completar e vamos atingir essa marca!”.

Chama atenção na fazenda a racionalidade do projeto e segurança dos gestores na obtenção do volume final. Quem anda pela fazenda sente absoluto domínio e firmeza naquilo que é feito na propriedade. Da escolha do padrão racial do rebanho aos recursos direcionados como a produção de grãos para consumo próprio e projeto de pastejo direcionado para redução de custos. Há quem possa indagar que muito capital foi direcionado para implementação do sistema de produção, mas quem trabalha com produção de leite sabe que é necessária muita habilidade de extrema capacidade de gestão para conseguir por “uma máquina em movimento” neste período de tempo. Quando andamos pela propriedade e conversamos com seu gerente geral conseguimos entender melhor o por quê do sucesso, índices e números. Marcelo se assim podemos classificar é fissurado naquilo que faz. Trabalha assiduamente no negócio. Entra no esquema antes do sol nascer e volta para casa muitas vezes tarde da noite. Respira o seu negócio. Gosta do que faz. Participa do trabalho, interage com sua equipe, realiza muitas tarefas, tem na cabeça os números do sistema.

Conheço outros produtores de leite com esse perfil, nenhum deles fracassado. Sob meu ponto de vista esta é uma qualidade importante para que sistemas de produção de leite prosperem. Talvez todo e qualquer segmento hoje, em diferentes setores da economia, necessitem de gestores envolvidos para aumentar as chances de sucesso no empreendimento. Na atividade leiteira esse perfil é mais do que desejado.

Muitos produtores, técnicos e profissionais envolvidos com a atividade associam de maneira precipitada o nível tecnológico de fazendas como indicador de eficiência. Um grande erro. Outras vezes realizam uma separação entre sistemas rústicos e sistemas tecnificados. A questão é que estamos no Brasil, um país enorme, com diferentes características edafoclimáticas em seu território, fazendo com que o princípio Darwiniano seja ainda mais evidente, ou seja: “o mais adaptado sobrevive”. Na Monjolo Velho encontramos um rebanho forte, rústico, girolando, manejado com alta tecnologia como bolus intra-ruminal e ordenha informatizada, calf-feeder para bezerras e pivô central ambientalmente correto. Na fazenda foram feitos investimentos adicionais para deixar a linha de irrigação mais alta que pivôs convencionais para manutenção de espécies arbustivas e arbóreas da região, de modo que possam ser aproveitadas como sombreamento natural para as vacas em pastejo. Na fazenda encontramos galpões concretados com ranhuras e sistema de lavagem tipo flushing, mas não temos nenhum free-stall. Temos vagões forrageiros total mix, mas não temos confinamento total. Em outras palavras temos uma profusão de idéias e conceitos unidos de maneira racional e adaptada a demanda e realidade da propriedade.

A fazenda merece ser visitada por todos que possuem conceitos consolidados sobre sistemas de produção. Na Monjolo Velho estes conceitos estão integrados, interligados e direcionados para produção de leite da maneira mais prática com o menor custo. Muitos sistemas de produção no Brasil são delineados e fundamentados, infelizmente, sob o ponto de vista do “tecnicamente correto”, quando deveriam ser estruturados no “economicamente viável”. Para saber quem ou o quê está certo devemos avaliar os indicadores financeiros e econômicos de cada sistema de produção. A rentabilidade média em 2012 da fazenda foi de 15%. Para refletir.

O projeto Porteira Adentro é uma iniciativa do MilkPoint, patrocinada pelo programa Maxi-Leite, da MSD Saúde Animal.

Texto: João Paulo V. Alves dos Santos, engenheiro agrônomo e produtor de leite

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