Sólidos do Leite

Valorização dos sólidos

Por Wiliam Tabchoury¹

A remuneração do leite em função do seu nível de sólidos (especialmente de gordura e proteína) é uma prática difundida há muito tempo nos principais países produtores de leite do mundo, principalmente na América do Norte e Europa. Essas duas das principais constituintes nobres do leite respondem, dentre outras coisas, pela elevação do rendimento industrial da produção de inúmeros derivados lácteos, principalmente para o caso dos queijos, leite em pó, iogurtes, requeijões e manteiga, entre outros.

Sendo assim, quanto maior for o nível de sólidos do leite, maior será o valor agregado obtido neste processo (tanto no preço recebido pelos produtores, quanto no resultado final obtido pelas indústrias de laticínios) e, portanto, maiores serão as chances de geração de ganhos adicionais para todos os elos envolvidos neste segmento do agronegócio.

O mercado brasileiro sempre valorizou o leite na sua forma líquida, ou seja, até agora, sua remuneração era definida, via de regra, pelo volume comercializado e, em alguns casos também, por demais parâmetros físicos químicos e microbiológicos do leite. Entretanto, o posicionamento recente de algumas das grandes indústrias de laticínios do País de estabelecer valores diferenciados pelas quantidades adicionais de gordura e proteína presentes no leite mostra uma mudança importante no setor e sinalizam expectativas de alterações iminentes nas relações de troca entre os agentes do mercado nacional.

Vale ressaltar que esta medida de remuneração diferenciada, em função da eficiência técnico-econômica obtida com a industrialização de determinadas matérias-primas, já aconteceu aqui no Brasil em duas outras importantes cadeias agroindustriais. Os exemplos relativamente recentes da cana-de-açúcar e da laranja, que incorporaram na sua formação de preço recebido pelos produtores o conceito de incremento do valor agregado, são um bom exemplo dessa nova realidade. Neste caso, o sistema passa a se preocupar com o rendimento industrial resultante da utilização de uma determinada matéria prima (traduzido em kg de suco concentrado/caixa de laranja ou kg de açúcar ou de álcool/ton de cana industrializada).

O setor lácteo nacional começa a dar sinais claros de crescimento e consolidação, especialmente pela evolução nas exportações e tendência provável de obtenção história de saldo positivo na balança comercial de lácteos, muito embora a recente queda na cotação do dólar (abaixo dos R$ 3,00/US$1,00) poderá “esfriar” os ânimos do setor e dificultar a inserção e crescimento do Brasil no mercado internacional de lácteos.

Inegavelmente, a medida adotada por algumas das principais empresas do mercado local de remuneração diferenciada para os seus fornecedores, em função do nível adicional de sólidos do leite (especialmente de gordura e de proteína) vai de encontro aos anseios convergentes de desenvolvimento do setor, ou seja, poderá marcar o início de uma nova era na relação entre preço, qualidade, volume de leite, composição de sólidos, rendimento industrial e, finalmente, obtenção de valor agregado.

Se, de um lado, caberá aos produtores investirem em recursos genéticos e no manejo do rebanho para buscarem uma elevação do nível de sólidos do leite, por outro lado restará à indústria de laticínios a criação de parâmetros atrativos e compensadores, ou seja, necessários para promover o incremento de gordura e proteína do leite entregues e, ainda, suficientes também para proporcionar atratividade econômica e gerar aumento na lucratividade do setor produtivo.

A busca progressiva pela elevação do valor agregado deve ser um objetivo comum de todos os agentes da cadeia do agronegócio lácteo nacional. A valorização de sólidos no leite é, sem dúvida, um dos bons exemplos de que o setor está procurando trabalhar, felizmente, na linha de incremento do “tamanho do bolo”. Isto aconteceu nos principais países produtores de leite do mundo e poderá funcionar muito bem aqui, desde que este processo consiga atingir, pelo menos, dois dos seus principais objetivos: incremento do valor agregado obtido com a industrialização do leite e devido aumento na lucratividade dos elos, especialmente daqueles que se encontram na base e no centro do processo agroindustrial.

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¹Wiliam Tabchoury, Engenheiro Agrônomo, Gerente de Produto Leite da Lagoa da Serra

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