Representantes da indústria de lácteos de Goiás informaram que consideram injustas as acusações feitas pelos produtores de leite de que o setor estaria cartelizando, a fim de derrubar os preços do leite "in natura". Segundo Domingos Vilefort, presidente do Sindicato das Indústrias de Leite do Estado de Goiás (Sindileite), a afirmação é despropositada, pois um segmento tão fragmentado como o de laticínios não se presta à prática de cartel. "Só em Goiás, temos mais de 600 empresas atuando no setor, o que, na prática, tornaria infrutífera qualquer tentativa de acerto prévio do preço a ser pago ao produtor."
Para Vilefort, caso isso fosse verdade, a cartelização teria que estar ocorrendo em todo o País, uma vez que a crise atual atinge todas as regiões produtoras de leite do Brasil. "Nós ainda estamos com preços razoáveis, pois estamos pagando em média R$ 0,30 o litro, e não R$ 0,25, como afirmam as entidades de produtores."
O presidente do Sindileite disse que chega a ser ingênuo imaginar que a indústria fosse restringir a captação de leite, caso conseguisse colocar todo o produto no mercado. "Pelo contrário, era de se esperar que os laticínios estivessem disputando o leite e até melhorando os preços pagos ao produtor, pois é óbvio que quanto maior fosse o volume de produto comercializado, maior seria o nosso lucro." Ele afima que a verdadeira razão determinante de toda a crise foi a recusa do consumidor em aceitar o aumento do preço do leite. "Chegamos a vender o leite longa-vida a R$ 0,95 para os supermercados repassarem ao consumidor por até R$ 1,20, mas o consumo caiu drasticamente, os estoques na indústria cresceram muito e fomos obrigados a fazer uma promoção atrás da outra para desovar o produto."
Segundo ele, atualmente os laticínios estão comercializando o leite longa-vida a R$ 0,75, quando só a embalagem custa R$ 0,22 e o leite "in natura", R$ 0,30. "Se você computar os demais custos, incluindo os impostos, chegará inevitavelmente à conclusão de que também a indústria está operando com prejuízo.". Para ele, só o leite em pó ainda permite uma pequena margem de rentabilidade hoje.
Além da queda no consumo, Vilefort cita outros fatores que podem ter contribuído para agravar acrise no setor, entre eles, o fato de as cidades ficarem vazias nas férias de julho, a decisão da Nestlé de deixar de captar diariamente 1 milhão de litros de leite em todo o País, e o aumento da própria produção de leite, que chegou a 10% em relação à entressafra passada. "Tudo isso criou um enorme excedente de leite no mercado, que a indústria não tem como absorver e a conseqüência natural é a queda dos preços pagos ao produtor." Porém, ele afirma que a expectativa é de que haja um reequilíbrio no mercado nos próximos meses, levando-se em conta que a queda dos preços deverá induzir o aumento do consumo, e a própria produção do leite deverá cair ao redor de 5%.
Para Vilefort, o setor de laticínios estará sempre sujeito a essas crises cíclicas, enquanto o governo não se der conta de que precisa adotar uma política estabilizadora para o segmento. A principal medida, segundo ele, seria a instituição de linha de crédito com recursos abundantes e juros baixos, para que a própria indústria pudesse estocar a produção. Vilefort afirma que, até agora, os recursos destinados à estocagem foram insuficientes e dirigidos especificamente paras as cooperativas. "Os R$ 300 milhões anunciados ontem pelo ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, são insignificantes diante das necessidades do setor, que são de pelo menos R$ 1 bilhão."
Quanto à disposição dos produtores goianos de implantar uma indústria de laticínios para processar 1 milhão de litros de leite/dia, Vilefort diz que vê com grande simpatia, pois assim teriam melhores condições para avaliar a conduta do segmento. "Quando tiverem de captar a matéria-prima, processá-la e enfrentar a guerra do mercado para comercializar seus produtos, certamente os produtores entenderão que a indústria é uma parceira do produtor e não a vilã de toda essa história."
Hoje, os produtores de leite farão manifestação em Goiânia na tentativa de sensibilizar as autoridades governamentais a adotarem medidas no sentido de coibir o que consideram abusos da indústria de laticínios em relação aos preços que pagam pelo produto, considerados baixos. A manifestação prevê passeata pelas ruas e concentrações em frente à Assembléia Legislativa e na Praça Cívica.
fonte: O Popular/GO (por Edimilson de Souza Lima), adaptado por Equipe MilkPoint
Laticínios goianos negam cartel contra produtor de leite
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