Vicente Nogueira Netto, chefe do Depto Econômico da CNA: a desvalorização do peso argentino mexerá com o mercado de leite no Brasil ?

Publicado por: MilkPoint

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Vicente Nogueira Netto é Chefe do Departamento Econômico da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e tem sido um dos principais articulistas do setor leiteiro, participando ativamente das principais questões envolvendo a conturbada cadeia do leite no Brasil. Nesta entrevista exclusiva ao MilkPoint, Nogueira Netto discute os efeitos da desvalorização do peso argentino no fluxo de lácteos para o Brasil, bem como as suas expectativas para o mercado de leite em 2002, CPIs e marketing institucional do leite.

O mercado está apreensivo com a desvalorização do peso argentino. Teremos uma retomada das importações em grandes volumes ?

VNN: Muita coisa que vem sendo falada é especulação, baseada em informações passadas por pessoas desinformadas, o que acaba complicando uma análise mais embasada. Na verdade, tudo que for dito agora é, antes de tudo, futurologia. Ninguém pode avaliar o reflexo que a desvalorização do peso terá antes de saber a magnitude desta desvalorização. Outro ponto fundamental é saber se a competitividade não será corroída por um aumento da inflação na Argentina. Por fim, é preciso também ponderar se o Brasil será mesmo o mercado mais atrativo para a Argentina, o que significa dizer que não existe só o Brasil no mundo para importar leite argentino. Estes pontos precisam ser considerados antes de qualquer afirmação.

Para quais produtos somos mais suscetíveis ?

VNN: O principal produto lácteo importado pelo Brasil é o leite em pó, que representa normalmente mais de 70% do valor das exportações. No entanto, este produto, neste momento, está devidamente defendido pelas medidas anti-dumping, que limitam preços mínimos de entrada fixados em dólar, ou seja, por mais que a moeda argentina venha a se desvalorizar, o preço é fixado em dólar, o que impede que tenhamos uma avalanche de leite em pó vinda da Argentina. Todos aqueles que avaliam de forma catastrófica esta questão já começam errando, pois o principal produto lácteo de importação brasileira está protegido.

(Nota MilkPoint: para preços no mercado internacional – determinados pelo USDA - entre US$ 1711 e US$ 1900/tonelada, o preço mínimo de entrada do leite em pó argentino e uruguaio é US$ 1900/tonelada; para preços abaixo de US$ 1711, é aplicada uma taxa de 11%).

E qual o status destas medidas anti-dumping ?

VNN: Elas são válidas inicialmente por 3 anos, com possibilidade de serem estendidas por mais 3 anos. Agora, em qualquer momento, qualquer parte envolvida no processo de investigação de dumping pode pedir revisão no processo. Mas é preciso que se faça isto formalmente, o que a Argentina até agora não fez – e se fizer, nada garante que terá sucesso, pois os parâmetros avaliados são estritamente técnicos. A CNA, que é a instituição peticionária, que requereu o processo, acredita que o governo brasileiro não irá fazer nenhuma alteração no processo, que demorou 3 anos para ser concluído e que reuniu 22 mil páginas. Alterar o processo significa colocar em xeque todo o sistema de defesa comercial do país, de defesa da concorrência, uma vez que trata-se de um processo que seguiu as normas e recomendações da Organização Mundial do Comércio.



E em relação aos outros produtos lácteos ?

VNN: Os outros produtos seriam principalmente queijo e leite longa vida, este com maior risco, porém com efeito mais localizado no sul do país. Mas é preciso avaliar mais alguns pontos, principalmente se a Argentina terá leite para exportar para o Brasil. Desde 2000, o setor leiteiro argentino passa por um crise tremenda, com queda de 9% na produção. Em relação ao ano passado, os números não são conclusivos, mas temos informações que indicam nova queda, agora entre 3 e 5%. Com todas as pessoas que conversei na Argentina, a opinião é unânime: não há tempo hábil e condições para uma recuperação significativa na produção em 2002, ainda que as condições de mercado favoreçam esta recuperação. Os produtores estão desestimulados e endividados, de forma que não se trata de um jogo de “ping pong”, ou seja, muda-se o câmbio e automaticamente reverte-se o cenário comercial entre Brasil e Argentina. Outro ponto é que o Brasil não precisa hoje de leite ! Uma indústria de lácteos argentina que, neste momento, vender leite no Brasil estará contribuindo para a queda de preços, tornando o mercado pouco atrativo à própria indústria.

Há possibilidade de termos uma maior aproximação entre as cadeias produtivas da Argentina e do Brasil ?

VNN: Sem dúvida, o momento é oportuno para isto. Em vez de “pelearmos” entre nós, como tem sido feito no passado, devemos criar uma base forte para o Mercosul, visando exportação, uma vez que o bloco em seu conjunto é superavitário em leite. A preocupação maior do bloco não deve ser quem vai espoliar quem, mas sim buscar um objetivo em comum, no mercado externo.

Em relação ao mercado interno, o ânimo para 2002 parece estar melhor do que no ano passado. O Sr. vê desta forma também ?

VNN: Um aspecto positivo é que a cada dia que passa vamos nos aproximando da entressafra. Todas as indústrias que pisaram desnecessariamente na goela do produtor de setembro do ano passado até agora, terão de buscar leite em pó no mercado internacional, em dólar, ou buscar leite argentino com preço definido pelo acordo anti-dumping. Ou seja, vão pagar caro. Por esse lado, a expectativa é que tenhamos um ano bom, sempre levando que dependeremos também da maturidade da indústria em dar um sinal positivo de preço o mais rapidamente possível ao produtor. Se este sinal demorar a ocorrer, passando da primeira quinzena de fevereiro, possivelmente o produtor não terá mais tempo de preparar o alimento para a entressafra. E este aspecto é muito importante na definição da disponibilidade de leite. Porquê, por exemplo, a produção em 2001 cresceu tanto ? Porque, no primeiro trimestre do ano, reunimos as melhores condições para a atividade leiteira, talvez jamais vistas. Os preços do leite estavam interessantes, alguns insumos importantes, como o milho, estavam cotados a preços reduzidos, o câmbio estava mudando (no sentido de desvalorização do real), as medidas anti-dumping foram aprovadas em fevereiro, ou seja, as perspectivas estavam muito boas para o produtor especializado, que foi quem elevou a produção em 2001. Neste ano, isto não vem acontecendo. Do ponto de vista de mercado, é evidente que uma menor produção reduzirá a oferta de produto e levará à recuperação dos preços, mas é algo duro para o setor, que não queremos.



Até quando vamos ficar nesta gangorra de preços e expectativas ? Será que a cadeia não consegue se organizar melhor e reduzir esta incerteza ?

VNN: Nós estamos acreditando muito no potencial que a comercialização do leite em mercados futuros tem para diminuir estas oscilações. Ele permite, ou deve permitir, um ajuste ex-ante, não ex-post. Se for possível prever que daqui há 4 ou 6 meses o preço irá cair, você vai começar a ajustar sua produção imediatamente. Já temos conversado com o CEPEA e com a USP e estaremos oportunamente conversando com a BM&F.

A aplicação de preços mínimos é viável ?

VNN: Na verdade, houve uma confusão grande nesta questão. Ninguém, nem a CNA, fez um pedido formal para a fixação de preços mínimos. Como a maioria das pessoas desconhece política agrícola, criou-se a confusão. O que temos pedido é que o leite tenha status de produto da PGPM (Política de Garantia de Preços Mínimos), já que é impossível fixar um preço mínimo neste país. O que nós queremos é ter acesso a recursos do MCR 6-2 para fazer EGF e PEP (Prêmio de Escoamento da Produção) de exportação, entre outras vantagens que não temos acesso hoje por não fazer parte da PGPM.



Como estão as CPIs do leite ?

VNN: Temos acompanhado um começo de movimentação (após as interrupções de final do ano) aqui na câmara dos deputados, na câmara federal. Nós conversamos com o relator da Comissão de Fiscalização e Controle que foi criada para avaliar esta crise também, o deputado Moacir Micheletto. O que vamos fazer agora é trabalhar em conjunto com esta Comissão para coletar as informações e propostas levantadas junto às diversas CPIs, avaliando o que podemos de fato traduzir em ações em âmbito federal.

Como está a utilização de leite em programas sociais ? Houve algum avanço ?

VNN: A utilização de leite em programas sociais via governo federal é impossível, pois o governo eliminou toda e qualquer forma de programa social baseado na doação de alimentos, substituindo por doação financeira, por meio de cartões magnéticos. Nós temos insistido com as federações, os sindicatos e as cooperativas para que façam pressão junto aos estados e prefeituras. De certa forma, há estados e regiões que têm programas sociais significativos, com distribuição de leite. São Paulo tem, Rio Grande do Norte tem, o Distrito Federal tem, Pernambuco está começando. Isto significa também as compras para as merendas escolares, o que é muito importante. É preciso fazer um trabalho de formiguinha. Dentro dos nossos planos, de maneira mais agressiva este ano, está a propaganda institucional do leite para estimular consumo, via CNA (pela Comissão Nacional de Pecuária de Leite), governo e todos os parceiros que quiserem. Queremos fazer algo de grande impacto, como as campanhas americanas. E não se faz nada deste porte sem dinheiro; é preciso que haja contribuição do setor, e que seja obrigatória.

Produtores e indústrias ?

VNN: Eu acho que toda a cadeia produtiva deve arcar, produtores e indústrias. Não podemos ficar como expectadores. Talvez seja melhor você dar um centésimo do que ganha para evitar um desastre maior em uma situação de aumento da oferta. Mas ainda estamos avaliando o que pode ser feito. Estamos estudando o que outros países já fizeram. Nosso objetivo é entrar com toda a carga neste ano.

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