José Roberto Canziani, da UFPR, fala sobre o Conseleite

Publicado por: MilkPoint

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O Prof. José Roberto Canziani, da Universidade Federal do Paraná, e a pesquisadora Vania Di Addario Guimarães, da UFPR e do CEPEA/USP, são os responsáveis pela metodologia que calcula o preço de referência do leite no Paraná, através do Conseleite, uma associação entre indústrias e produtores, visando dar transparência ao mercado e buscar preços justos para todos, tendo como base os preços de venda. É uma iniciativa inédita no setor, concebida a partir de meados do ano passado e que está agora iniciando suas atividades, publicando preços de referência a partir de uma metodologia já aplicada com sucesso para o setor sucro-alcooleiro. Confira a entrevista que o Prof. Canziani deu com exclusividade ao MilkPoint.

O que é o Conseleite ?

JRC: O Conseleite é um Conselho Paritário, que reúne produtores e indústrias. São 22 representantes, 11 do lado da indústria e 11 do lado dos produtores. O Conseleite é assessorado por uma Câmara Técnica e Econômica (CAMATEC), composta por 8 membros, sendo 4 indicados pelos produtores (via FAEP) e 4 pelas indústrias (via SINDILEITE). O objetivo é determinar preços de referência para a matéria-prima, a partir dos preços de comercialização do leite e derivados. Com isso, se determina um preço justo, em consenso, sendo divulgados à sociedade os valores de referência, que ninguém é obrigado a seguir. Porém, os exemplos anteriores, como o do Consecana, do qual sou coordenador no Paraná, já há 4 anos, os valores de referência passam a ser de fato uma referência para o mercado. As usinas passam a ter interesse em seguir os preços, fazendo negócios a partir destes valores. E isso pode ocorrer no leite também, sendo um balizador de negócios.

Como é, em linhas gerais, a metolodogia adotada ?

JRC: Estamos há 4 meses, em âmbito interno, divulgando os preços ao setor no Paraná, mas agora houve a primeira divulgação oficial dos preços de referência. Divulga-se o preço médio do mês anterior, dos 14 produtos levantados e os preços de referência para a matéria-prima, calculado a partir de uma metodologia complexa, mas transparente. O Conseleite definiu então um leite-padrão, com determinadas características de qualidade e volume e, a partir dele, um leite de qualidade inferior (com deságio de 10%) e um leite de qualidade superior (com ágio de 15%), dispersos em torno do leite-padrão.

Existe um balizamento entre essas faixas de qualidade e os programas de pagamento por qualidade dos laticínios ?

JRC: Sim, o Conseleite trabalhou com a média dos sistemas de pagamento das empresas. O objetivo é reproduzir exatamente o que acontece no mercado, porém de uma forma comunitária.

Como se calcula o preço de referência ?

JRC: Considera-se as seguintes variáveis: preço de venda dos lácteos, peso da matéria-prima no custo final de cada produto levantado, rendimento industrial e o mix de comercialização dos derivados. O custo total de produção inclui o custo agrícola (de produção do leite), o custo individual de fabricação e o custo de comercialização dos derivados. A partir destas informações, faz-se então um cálculo que permite chegar ao preço de referência. O Conselho divulga mensalmente os preços coletados no mês anterior, e os preços projetados para o mês corrente. Esta projeção é a partir do levantamento dos dados das empresas, coletados no primeiro decêndio do mês. Por isso, as reuniões são em torno do dia 15. A Universidade recebe os valores da comercialização do primeiro decêndio, faz os cálculos e gera um valor projetado. No próximo mês, faz-se a checagem para saber se a projeção foi ou não correta, podendo haver um acerto, projetando-se então para o mês seguinte.

O preço coletado é o preço no varejo ou atacado ?

JRC: Coleta-se o preço no atacado, ou seja, o preço de venda à rede varejista, posto no cliente (CIF). É o preço vendido ao supermercado, colocado no supermercado. Se o supermercado quiser liquidar o estoque, vendendo a preços mais baixos do que comprou, é outro problema. Essas distorções não são internalizadas na metodologia do Conseleite.

Quanto do leite paranaense está dentro do Conseleite ?

JRC: Não temos um dado muito preciso, mas estimamos que cerca de 70 a 80% do leite do Estado são de empresas informantes e participantes do Conseleite. São 9 grupos com diversas unidades industriais.

O que motivou essa aproximação, considerando que há pouco tempo atrás o setor se confrontava em uma CPI ?

JRC: O setor precisava de valores de referência para diminuir essa relação conflituosa entre produtor e indústria, onde hora um tinha razão, hora outro tinha razão. O produtor ficava com a sensação de que a indústria pegava a parte dela, garantindo o lucro, e o que sobrasse iria para o produtor. Já a indústria atribuía ao varejo a responsabilidade dos preços e criticava o comportamento do produtor, alegando que este leiloava seu leite, mudando de fornecedor sempre que havia alguma vantagem, desconsiderando outros aspectos, como o relacionamento passado. Os dois lados, enfim, se muniam de uma série de argumentos. Já havia uma Comissão Paritária anterior, que chamou a Universidade e pediu uma proposta para solucionar estes conflitos. Apresentamos então o sistema feito para o setor sucro-alcooleiro, o Consecana, mostrando que este poderia ser adaptado ao leite. Durante alguns meses, estudamos o assunto, visitamos todas as unidades industriais, participamos de câmaras técnicas para formar todas as regras e discutir cada ponto.

O preço de referência acaba tendo o efeito de um preço mínimo ?

JRC: Não. O preço de referência é um valor médio, que se aplica ao leite-padrão. Há uma escala, de ágio e deságio, definindo uma faixa de preços para a qualidade e volume, dentro das condições normais de mercado. Quem está pagando acima possivelmente é altamente competitivo. Por outro lado, quem está pagando menos, tem um problema sério de competitividade e isso vai ficar aparente. Algumas indústrias podem ter custos mais baixos, sendo mais eficientes. Há, por fim, efeito do mix particular de produtos de cada empresa, que afeta as possibilidades de pagamento da empresa.

É possível ampliar a idéia para outros Estados ?

JRC: Sem dúvida. O Consecana surgiu em São Paulo e hoje já está em vários Estados. Acho que a experiência do leite vai para o mesmo caminho. Estamos trabalhando de uma forma muito prudente, desde junho. Foram várias reuniões para definir os parâmetros, finalmente assinados pelos dois lados. Os cálculos são complexos, mas fundamentados em bases amplamente discutidas e transparentes. É algo que carrega credibilidade e que pode ser levado a outros Estados, com os devidos ajustes, pois a composição das indústrias em outros Estados pode ser diferente. O que não se pode fazer é dizer que o preço-Paraná é o preço-Brasil, uma vez que estudamos o universo de mercado do Paraná. É preciso adaptar cada situação.

O Conseleite é uma prova de que a cadeia pode conviver bem, sem a intervenção do governo ?

JRC: Com certeza. Antigamente, o governo regulava o mercado e o preço era formado de baixo para cima. Pegava-se os custos de produção e industrialização e impunha-se o preço ao consumidor. Isso acabou. É impossível voltarmos a essa era. Agora, o que vale é o mercado: qual o preço que o mercado deseja pagar por determinado produto ? Os preços se formam no mercado. Em função disso, a indústria não pode simplesmente garantir seu lucro e o que sobrar fica para o produtor, que arca com todo o risco. Não seria justa essa situação em mercados integrados, como leite, frango, suínos, laranja, cana. Os riscos precisam ser divididos. A idéia é a seguinte: vamos nos unir para vendermos pelo máximo preço possível, mas o mercado é quem manda. O setor deverá ganhar junto ou perder junto. Se o mercado está ruim, há um desestímulo à produção, ajustando posteriormente oferta e demanda. Se pratica o livre mercado, mas em uma situação mais justa, visando ao equilíbrio de longo prazo, dentro do qual os produtores estão dispostos a produzir aquela quantidade ao preço tal, e os consumidores estão dispostos a comprar aquela quantidade ao preço tal. É o chamado "preço justo" em economia.

Que outros benefícios o Conseleite traz ?

JRC: Considero que, por avaliar inúmeros parâmetros de eficiência das indústrias, o Conseleite gera uma reflexão interna no setor industrial, para fins de gerência do negócio leite das empresas. Pode-se avaliar, por exemplo, se determinada empresa está acima ou abaixo da média em rendimento industrial para determinado produto. Através de gráficos, sem expor dados individuais, é possível mostrar a dispersão dos dados e isso ajuda as empresas no aspecto gerencial. A empresa, então, tem o seu dado, a média e a dispersão, mas não os dados das outras. Há outras utilidades, como um software que está sendo feito, onde o produtor digita os parâmetros de qualidade do seu leite e o software automaticamente dá a ele o seu preço de referência. De forma semelhante, cada empresa pode calcular o seu preço de referência, com base em seu próprio mix de produtos. Por exemplo, determinada empresa poderá ter apenas 3 produtos ao invés dos 14 levantados. Ela poderá trabalhar com o seu preço de referência. No futuro, quando forem feitos contratos de longo prazo entre empresas e produtores, pode-se balizar os contratos nos preços de referência, como por exemplo uma determinada porcentagem maior ou menor do que o preço de referência. Aliás, hoje, outros Estados poderão utilizar os dados do Conseleite como base para seus preços, ajustados de acordo com suas particularidades de mercado. Seria uma simplificação, mas já se consistiria em uma maneira de utilizar os dados do Conseleite em uma escala mais ampla.

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Em breve, será disponibilizado um Manual com 30 perguntas e respostas sobre o Conseleite, explicando de forma didática o funcionamento do Conselho. Fique atento ao MilkPoint !
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Edmundo Trein
EDMUNDO TREIN

OUTRO - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 21/02/2003

De acordo com o manual do Conseleite, distribuído nos encontros com os produtores e com o que conseguimos entender, os custos de produção considerados pelos membros do Conseleite, estão totalmente defasados e a fórmula de cálculo usada para estabelecer o Valor de Referência, protege sempre as margens das indústrias e não dos produtores.
Renato Fonseca
RENATO FONSECA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 30/01/2003

Gostaria de aplaudir a iniciativa do MilkPoint de dar a maior visibilidade possível às ações do Conseleite. Enfim, uma luz se acende no fim do túnel e tudo indica que não se trata de um trem vindo na nossa direção. Essa iniciativa do Paraná deve se propagar pelos outros estados produtores, pois é a contribuição mais sensata que surgiu nos últimos tempos para resolver os dilemas da cadeia leite, que tantos prejuízos tem causado ao setor, notadamente aos produtores de leite.
Marcos A. Macêdo
MARCOS A. MACÊDO

PIUMHI - MINAS GERAIS - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 25/01/2003

Não conhecia este conselho, mas acredito ser uma maneira muito valiosa e mais justa dentro deste mercado neoliberal, onde precisamos lutar para terminar com as barreiras comerciais para nossos produtos da agroindústria, pois corremos sérios riscos de comparar o custo unitário direto do nosso leite com o preço de leite no mercado internacional e resolver importar leite do nosso vizinho do cone sul, matando ou prejudicando este trabalho desenvolvido por este conselho.

Este conselho é um grande passo para reforçar as associações de produtores de leite e demonstrar para nossos governantes que sabemos por que os custos internacionais do leite são capazes de competir com nossos custos internos. Porém, parece que a taxa cambial está nos favorecendo contra este perigo europeu, mas não afasta o perigo da importação de leite Argentino.

Trabalho há 30 anos em laticínios, somente atuando com o lado tecnologico, porém sempre preocupado com a falta de uma política séria de incentivo à produção leiteira, como também proteger o pequeno produtor dos grupos multinacionais, que comandam o mercado de compra de leite no nosso país. O governo deve resguardar o direito dos menores contra o poder econômico dos maiores, em detrimento de se tornar refém de sua própria política. É uma politica injusta quando deixam os produtores na negociação direta com os detentores do mercado de compra de leite. Agora já surgem as granjas leiteiras que é uma boa opção de fazer frente aos monopólios de compra de "leite in natura" no mercado. Precisamos incentivar mais ainda a produção regionalizada de derivados de leite, criando associações de 4 a 6 associados, empacotar, industrializar com custos baixos, sem agregar custo de distribuição ou minimizando estes custos de distribuição, ficando desta maneira menos dependentes dos grandes compradores de leite.
Qual a sua dúvida hoje?