
Engenheiro Civil de formação, Cícero Hegg é fundador dos Laticínios Tirolez e diretor da ABIQ, Associação Brasileira das Indústrias de Queijo, sendo uma de suas principais lideranças, sempre buscando a representação de classe como uma forma de fazer com que o setor em que atua seja ouvido e participe das decisões governamentais, além de facilitar ações que beneficiem toda a classe. Em 1990, por exemplo, liderou um grupo de queijeiros, reunindo US$ 1 milhão em investimentos de marketing para uma campanha em televisão, visando o marketing institucional de queijos. Cícero Hegg concedeu esta entrevista exclusiva ao MilkPoint, para o qual falou sobre a cadeia de queijos no Brasil, a informalidade, preços do leite e a questão tributária, entre outros assuntos de grande atualidade. Acompanhe!
MKP: A atividade econômica vem caindo nos últimos meses, gerando preocupação em diversos setores, entre eles o da alimentação. Como essa situação está afetando o mercado de queijos? Há queda perceptível no consumo?
CAH: Sem dúvida, estamos sentido essa realidade. No primeiro trimestre, a situação era diferente. Eu atribuo isso ao fato de que houve uma queda de venda dos bens duráveis, com redirecionamento para o consumo de alimentos no primeiro trimestre. No segundo trimestre, sentimos uma queda no consumo, pelo fato da renda do consumidor ter caído, aliada ao aumento do custo da matéria-prima que, no meu entender, considerando as condições de mercado mas sem entrar no mérito dos custos de produção, atingiu valores (US$ 0,19/litro) os quais o consumidor não consegue absorver. Entendo que devemos trabalhar, no máximo, com valores entre US$ 0,13 a US$ 0,15 por litro, sem também entrar em outro item delicado, que se refere às margens do varejo. Estamos em uma época em que os festivais de queijo sempre alavancaram vendas e, nesse ano, estamos sentindo que a reação é aquém do normal, reforçando a percepção de queda ou estagnação no consumo. O poder aquisitivo está comprimido. Vale dizer que existem poucas informações que permitem o acompanhamento exato da situação do consumo no setor de queijos.
MKP: Como a questão tributária afeta o agronegócio do queijo?
CAH: Essa é uma questão muito importante. O queijo tem um estigma de ser algo supérfluo no Brasil, ao passo que nos países desenvolvidos o queijo é visto como alimento. A questão tributária é perversa no sentido da penalização de um produto muito importante. No meu entender, grande parte dos lácteos deveria entrar em um tratamento tributário mínimo, e foi isto que pedimos ao Ministro da Agricultura, em fevereiro. A cadeia de lácteos, em função da baixa rentabilidade, não pode ser onerada, além do fato de gerar alimentos de valor para a população e atuar na alocação do homem no campo. A atividade leiteira exige bastante gente para sua execução, muito mais, por exemplo, do que a pecuária de corte, gerando empregos no campo e na agroindústria, cuja relação, no caso do queijo, apresenta recursos humanos/volume de leite muito favorável. A geração de um posto de trabalho na indústria queijeira é muito barata, devendo ser premiada por esse fato via questão tributária. A reforma tributária deve levar em conta essas questões, além de considerar aquilo que já foi conquistado pelo setor. É importante salientar que a indústria queijeira via de regra compra o leite do pequeno produtor, ao passo que a grande indústria está ligada em geral aos maiores produtores.

MKP: Qual é a sua avaliação sobre a chamada "guerra fiscal" entre os Estados?
CAH: O Brasil é um dos poucos países do mundo onde você tem barreiras entre Estados. A União Européia, por exemplo, não tem barreiras nem entre países. É preciso encontrar um jeito de poder trabalhar e deixar os impostos lá na ponta.
MKP: Sabe-se que a informalidade no setor de queijos é elevada. Ela afeta de forma significativa o mercado formal, ou em sua opinião o problema é mais de saúde pública ?
CAH: Esse é um ponto que afeta a questão tributária, cujos valores são muitas vezes inabsorvíveis pelo setor e representam um convite à informalidade. Quando o ganho pelo caminho da evasão é muito alto, aumenta-se a atratividade ao risco de não se pagar impostos. Um ICMS de 18%, enquanto a margem da indústria é 3 a 4%, leva à informalidade, com desdobramentos em todos os aspectos, atingindo até a saúde pública. Quem trabalha de forma correta, com produto com SIF, está sujeito a cada hora uma portaria nova, de forma que é preciso o Estado sentar com a indústria e discutir essas questões. Vale dizer que o chefe do DIPOA, Dr. Celso Velloso, tem se mostrado muito aberto a estes pontos. Solicitamos também ao Ministro Roberto Rodrigues uma maior aproximação na relação entre o Ministério e a Indústria. A questão de saúde pública também existe, apesar do risco de um problema de saúde causado pelo consumo de queijo ser em geral muito pequeno, com um risco um pouco maior para os queijos frescos.
MKP: O Sr. acha que a informalidade está aumentando no setor?
CAH: Eu acho que com as conquistas de incentivos fiscais, como o que obtivemos no final do ano de 2001 em Minas Gerais, caminha-se no sentido de reduzir a informalidade. Trabalhando-se com a carga tributária em um porcentual suportável, as empresas aparecem. É aquela velha história: se o imposto for de 1%, sempre vai ter aquele que não vai pagar, mas a grande maioria não vai correr o risco por este valor. A minha visão envolve trazer os agentes da cadeia para sentar e discutir um projeto que seja viável e não o papel fiscalizador que o Estado sempre se impôs. Acredito muito no caminho da compreensão e do entendimento, e não da imposição colocada de cima para baixo. É o "Pacto Social" que o Presidente Lula tanto falou, e que somente com a participação da sociedade e com suas representações será possível.
MKP: O Sr. tem acompanhado o desenvolvimento do Conseleite, no Paraná ? O que o Sr. acha ?
CAH: Tenho acompanhado e, inclusive, ficamos de reunir o CONIL - Conselho Nacional da Indústria de Laticínios aqui em SP para discutir o assunto. Minha opinião é a seguinte: se for alguma coisa que venha trazer à mesa a transparência do setor, dentro daquilo que é possível, estou de acordo. Se for um Conselho que trará mais imposições ao setor, eu sou contra. Sou a favor de todos os elos da cadeia sentarem-se à mesa para conversar, começando pelo produtor e pela indústria.

MKP: Ligada à questão da qualidade do leite, sabe-se que muitos laticínios estão captando leite nas novas fronteiras, como Mato Grosso, Rondônia e Pará. Como fica a questão da qualidade da matéria-prima nessas regiões ?
CAH: O setor de queijos é o setor "bandeirante", que vai na frente, sendo o primeiro que se instala. A bacia leiteira de Rondônia foi aberta pelos queijeiros. Somente agora o longa vida está chegando lá. No meu entender, temos uma nova fronteira no Sul do Pará, com qualidade ainda deficiente. Deveríamos estar queimando etapas, trabalhando com a coleta a granel nestas regiões. Não é porque temos um prazo maior para a coleta a granel na região Norte que não deveríamos estar nos estruturando melhor nessa região.
MKP: Como o Sr. vê hoje a produção em São Paulo?
CAH: Em nossa região (noroeste do Estado), a cana-de-açúcar está colocando uma cenoura na frente do produtor, acenando com a possibilidade de ganhos significativos pelo arrendamento da terra. Estamos cobrando junto ao governo uma posição sobre a importância ou não do leite para o Estado. A Câmara Setorial está fazendo um raio-X do setor em São Paulo, visando subsidiar o governo com informações concretas da atual situação. Parece que a estratégia do Governador Alckmin é que São Paulo seja um estado prestador de serviços, com algumas indústrias de tecnologia de ponta. Mas como fica o homem do campo? Acho que é necessário fazer um esforço para segurar o homem no campo. Por aqui, não se pensa nestas questões, pois temos a tendência de sermos muito imediatistas. No meu entender há espaço para a pecuária leiteira em São Paulo com modelos adequados para cada região.
MKP: O Brasil consome pouco queijo, entre 2,6 e 4,3 kg/pessoa/ano, a metade do consumido pela Argentina. Porque o consumo de queijos é baixo e o que pode ser feito para reverter?
CAH: Essa situação está ligada ao fato do baixo poder aquisitivo e ao fato do queijo não falar dele. Há alguns alimentos que estão crescendo, pois tem trabalhado na comunicação, ao passo que o queijo tem se comunicado pouco, sendo que naturalmente é um alimento que se mostra importante para a nutrição e para a saúde. Mas é preciso falar dele.
MKP: Que ações têm sido feitas nesse sentido, pelo setor queijeiro?
CAH: Recentemente, contratamos uma nutricionista que fez uma extensa pesquisa a respeito do valor nutricional e dos benefícios do queijo e, nesse momento, estamos formatando a divulgação destas informações, junto aos formadores de opinião, especialmente os profissionais da área de saúde, de nutrição e de condicionamento físico, com informações interessantes como o fato do consumo de queijos reduzir a incidência de osteoporose em adolescentes e idosos. Estamos elaborando um orçamento para 12 meses, envolvendo a contratação de um profissional com formação em comunicação e na área técnica, que possa nos ajudar a conduzir essa área na ABIQ. Há muita desinformação. Há médicos que recomendam queijos brancos, sem saber que há muito queijo amarelo que é amarelo por ter corantes, sem relação com teor de gordura, por exemplo. Na pesquisa que fizemos, relacionamos diversas informações sobre o CLA, ácido linolênico conjugado, o ômega-6, que previne o câncer de estômago. O CLA está mais presente nos queijos cujo leite foi produzido via alimentação natural do gado. Isso representa uma certa volta no tempo, fruto de termos talvez interferido muito na natureza, a ponto de criarmos o problema da "vaca louca" na Europa. Temos de estar atentos a estas tendências do mercado e não trilhar o caminho que outros trilharam, para depois termos que corrigir.
MKP: Em 1990, o Sr. reuniu US$ 1 milhão para investir em marketing institucional. Isso seria possível hoje? Porque uma empresa deve investir em marketing institucional, quando ela tem sua própria marca a ser fortalecida?
CAH: É muito simples. Individualmente, as verbas são restritas. No marketing, é necessário ter freqüência, é preciso estar sempre na mídia, é preciso trabalhar bem o ponto de venda. Há ações que se encaixam perfeitamente no marketing institucional. Quando se tem o aval de entidades inquestionáveis, o consumidor tende a aceitar a mensagem de forma muito mais fácil, pois entende que há isenção. Acho que, no Brasil, é importante que as entidades destinem verbas para pesquisa, passando para a opinião pública um conceito inquestionável. Sou a favor da explicação das características dos lácteos ao consumidor, quais os tipos de gordura benéficos e prejudiciais, com transparência. No setor de queijos, as empresas são pequenas e médias, com raríssimas exceções. As verbas individuais não são grandes. Foi o que motivou a ação de 1990, pois as empresas acharam que ganhariam mais ao criar uma ação mais forte, institucional, do que investindo em sua marca, com o mesmo investimento.

MKP: Qual é a expectativa que o Programa Fome Zero gera no setor de queijos?
CAH: No meu entender, há muita pouca fome no Brasil. Há sim deficiência em determinados nutrientes, como a questão da proteína, onde os lácteos são importantes, além do cálcio, em grande parte abastecido pelos lácteos. No caso específico dos queijos em relação ao Fome Zero, há a questão da maior parte ser refrigerada, à exceção de um provolone, de um parmesão, o que nos induz a valorizar a produção regional, com o queijo atendendo às populações carentes da região. O segundo aspecto é a questão do soro, que tem sido crucificado pelo programa contra a fraude, do qual saliento que somos a favor. Porém, o soro tem ainda 6% dos sólidos do leite, podendo ser aproveitado de diversas formas, como por exemplo ser desnatado para tirar a gordura e fazer manteiga, fazer ricota, que é riquíssima de proteína. O soro pode também ser trabalhado na forma líquida, como fonte de nutrientes, suprindo a necessidade de proteína. Tenho também uma certa dúvida quando se considera a questão da auto-suficiência. Não temos leite hoje para abastecer o mercado interno. De repente, pode se criar um cenário irreal de preços ao produtor em função da escassez, ao se ter um programa que aumente o consumo sem a contrapartida em produção, baseado em um subsídio indireto, que seria a doação de leite. E amanhã, quando não tiver mais o Fome Zero? Como será o mercado? Sou a favor de uma política pública que resgate a dignidade humana, criando oportunidades para todos.
MKP: Porque muitas indústrias não utilizam o soro para estas finalidades que o Sr. mencionou, ao invés de fraudar?
CAH: Por causa da ganância e da ambição. É preciso estudar a questão da bebida láctea. Acredito que deve ser permitido comercializar, porém de acordo com o estabelecido na embalagem, de acordo com a legislação. O que não se pode fazer é vender soro com leite e chamar de leite, o chamado leite modificado. O consumidor pode comprar soro, se assim o desejar. Na Alemanha, por exemplo, o consumidor tem à disposição o soro como um produto de consumo. O que não pode é comprar uma coisa, pensando em se tratar de outra.
MKP: Que papel cabe ao Brasil no mercado externo de queijos, e quais são as perspectivas?
CAH: Sou muito otimista. Estamos reunindo os queijeiros para criar os PIQs, Padrões de Identidade e Qualidade. O objetivo é trabalhar com um padrão uniforme entre as empresas que querem exportar, eventualmente com possibilidade de colocação dos produtos em bolsa de mercadorias e futuros para atrair capital. Desta forma, teríamos 3 a 4 commodities importantes, que seriam o queijo prato, a mussarela, o parmesão e o queijo cheddar, que está começando a aparecer no Brasil, com padrões para o mercado interno e externo. Além destas commodities, teríamos as especiarias, que tem um bouquet, como o queijo do reino, que é um queijo maravilhoso, que pode perfeitamente agradar o consumidor da Índia, do Japão, que está começando a aprender a comer queijo. Acho que o mercado externo pode ser um dos pilares de sustentação do setor. Mas é importante também trabalhar o mercado interno, de forma a ganhar escala de produção.
MKP: A elaboração de queijos utiliza grande quantidade de leite. Em sua opinião, o aumento do consumo de lácteos no Brasil deverá ser impulsionado pelo aumento no consumo de queijos?
CAH: Vai depender do que venhamos a fazer no sentido de viabilizar a indústria e trabalhar a comunicação. Mesmo que nada seja feito nesse sentido, minha intuição é que sim, porque a alimentação fora do lar está aumentando e o queijo é um ingrediente importante nessa tendência. O consumo de queijos aumentou muito em outros países, fruto desta tendência de consumo fora do lar, e não vejo porque o mesmo não ocorrerá no Brasil.

