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Diagnóstico do leite em Goiás: a realidade continua a mesma

Por Marcelo Pereira de Carvalho (MilkPoint)
postado em 09/10/2009

 

No último dia 08 foram divulgados os resultados do Diagnóstico da Cadeia Produtiva do Leite de Goiás, realizado pela FAEG (Federação da Agricultura do Estado de Goiás) e coordenado pelo Prof. Sebastião Teixeira Gomes, da Universidade de Viçosa. (Veja o documento na íntegra).

O trabalho é de grande valia para compreendermos um pouco mais como a produção de leite está estruturada na região e, acredito, sirva também para outros estados do Centro-Oeste e do Sudeste, visto que as condições de produção são semelhantes (inclusive esse Diagnóstico chegou a conclusões bem próximas ao realizado em MG em 2005).

Os dados apresentados não impressionam por si, visto que, de certa forma, chegam a conclusões já esperadas. Porém, certamente impressionam ao permitir uma caracterização da atividade que está longe daquilo que poderia se esperar, quando se pensa em uma cadeia de produção que em tese se moderniza.

A atividade é caracterizada pela assimetria: 68,4% dos produtores amostrados produzem menos de 200 litros por dia e são responsáveis (cálculos meus) por 25,7% do leite, ao passo que 9% dos produtores produzem mais de 500 litros/dia e respondem por 47% do leite (Tabela 1).

Tabela 1. Distribuição dos produtores de acordo com o número e volume produzido (amostra de 500 produtores).



Em média, o produtor goiano (amostragem de 500 produtores) produz 245 litros/dia, sendo o capital médio investido de R$ 786.594,00, com 74,67% em terra, o que caracteriza um sistema extensivo de produção.

O nível tecnológico é, em geral, baixo. Pouco mais de 30% fazem controle leiteiro; 69,3% não utilizam caneca de fundo telado para diagnóstico de mastite; 20% ainda não resfriam o leite; dos que resfriam, 60% o fazem em tanques coletivos. Mais de 40% dos reprodutores são zebuínos puros - sendo o principal, com 27% dos casos, touros Nelore; a produtividade por área e por animal é muito baixa (2.102 litros/hectare/ano e 8,17 kg/vaca/dia).
E por aí vai.

Nota-se, também, que há diferenças claras entre os módulos de produção: até 200 litros, os produtores utilizam quase que exclusivamente mão-de-obra familiar, têm baixo nível educacional e tecnológico, não recebem assistência técnica, têm menor produtividade, usam menos insumos e têm menor produtividade da mão-de-obra. Basicamente, sobrevivem, ou tentam. Acima de 500 litros e, especialmente, acima de 1000 litros, os dados vão melhorando. Entre 200 e 500 litros/dia, há uma transição: hora se assemelham aos produtores de menos de 200 litros/dia, hora caracterizam-se mais como produtores de mais de 500 litros.

Como outros trabalhos já realizados, a maior parte dos produtores não cobre os custos totais de produção (tabela 2) e, quando cobrem, a margem é pequena e bastante inferior ao rendimento obtido pela poupança (apenas produtores acima de 500 litros/dia têm lucro). Em geral, são cobertos apenas os custos operacionais efetivos, isto é, o desembolso de caixa, sem contabilizar a mão-de-obra familiar e a depreciação. Isso quer dizer que i) o produtor se sujeita a trabalhar por um valor menor do que o custo de oportunidade de seu trabalho, e ii) no longo prazo, será forçado a deixar a atividade por não cobrir os custos totais de produção.

Vale dizer que o trabalho compreendeu o período entre julho de 2008 e junho de 2009, em que os preços se mantiveram baixos por boa parte do tempo.

Tabela 2. Preço por litro, Custo Operacional Efetivo (COE), Custo Operacional Total (COT), Taxa de Remuneração excluindo Terra (RCST) e Taxa de Remuneração incluindo Terra (RCCT).



Torsten Hemme, do IFCN, que analisa custos de produção de diversas fazendas ao redor do mundo, constatou que menos de 2% do leite pode ser produzido ao custo comparável a US$ 2.000/tonelada de leite em pó, vigentes no mercado internacional no início do ano.

Porém, a conta não é tão simples assim. O mundo tem cerca de 145 milhões de fazendas de leite, sendo 75% delas tipicamente de subsistência, produzindo 30 a 40% do leite, talvez parecidas com os produtores de menos de 50 litros por dia de Goiás. Outros 24% são tipicamente familiares, sendo responsáveis por 40 a 50% do leite mundial. Encontram-se nessa categoria, por exemplo, a maior parte dos produtores da Europa. Apenas 0,4% das propriedades são encaradas como um negócio, e respondem por 10 a 20% do leite mundial.

Torsten colocou um aspecto interessante: os produtores europeus estão entrando em greve. Ora, quem entra em greve são os funcionários, não os empresários. O produtor europeu, no geral, vê sua atividade muito mais como a obtenção de uma renda mensal, do que como um negócio que precisa dar lucro. Se essa renda se torna insuficiente, entra-se em greve.

Em função dessa caracterização mundial da atividade, mesmo com preços aparentemente inviáveis, a produção se mantém, pois estão sendo cobertos os custos operacionais, assim como ocorreu no trabalho de Goiás. Nesse sentido, Goiás é um retrato do mundo e da atividade leiteira: da porteira para dentro, mais uma alternativa de sobrevivência, até por falta de outras opções, do que um negócio. Da porteira para fora, isso evidentemente muda.

Ao serem questionados sobre as razões de permanecer na atividade, essa realidade fica mais clara. Dos produtores com até 50 litros diários, 53,5% está na atividade por permitir uma renda mensal, ao passo que 13,4% afirmam que a região não permite outra atividade (tabela 3). No agregado, apenas 4,4% afirmam se tratar de um negócio lucrativo, enquanto 51,0% colocam que a questão da renda mensal é o principal aspecto. Ainda, 14,5% dizem que a razão é a tradição familiar (principalmente entre os acima de 1000 litros por dia).

É válido lembrar - e importante refletir sobre isso - que, como o número de pequenos produtores é muito grande, todas as análises agregadas são influenciadas pelas suas respostas, o que não caracteriza necessariamente que o leite produzido siga os mesmos padrões, visto que, como mostra a tabela 1, um número relativamente pequeno de "grandes" produtores produz a maior parte do leite.

Tabela 3. Razão pela qual o entrevistado produz leite.



Esse perfil é sustentável? Provavelmente não, mas durará mais algum tempo, talvez até a geração seguinte. Cerca de 33% dos entrevistados indicam que os filhos deixarão o meio rural, ou seja, não haverá sucessão. E essa % foi semelhante em todos os extratos, sendo a menor - 27,2% para os produtores entre 200 e 500 litros e a maior - 39,5% entre aqueles com menos de 50 litros/dia. Aliás, o fato do número de produtores com menos de 50 litros/dia já ser menor do que os que estão entre 50 e 200 litros indica que provavelmente o módulo mínimo que permite sobrevivência já está nessa faixa e não na primeira.

Voltando à questão anterior, apenas 42,5% dos produtores afirmam que os filhos continuarão com a atividade (15,1% trocarão de atividade e 9,0% venderão a propriedade, além dos que deixarão o meio rural, já mencionados acima).

Este trabalho retrata uma realidade pontual. Seria interessante termos uma análise temporal para encontrar respostas sobre as tendências. Exemplo: qual é o perfil do produtor que aumenta sua produção, isto é, será que, embora sendo uma atividade marcada pela produção de subsistência ou pouco mais do que isso, cada vez mais o leite, em quantidade, está sendo produzido por um produtor que responde mais à tecnologia e que não está tão à margem do processo, ainda que esteja longe de ser um exemplo de eficiência? Tendo a achar que sim.

O diagnóstico retrata talvez duas realidades. Olhando-se para a caracterização média dos produtores, os resultados são desanimadores. O que representam estes perfis, senão um exemplo evidente de pobreza rural e abandono? Olhando para o segmento dos produtores de maior porte, a situação é um pouco melhor, mas ainda muito aquém do potencial em relação a produtividade e rentabilidade.

A produção goiana tem um grande desafio pela frente. Após o estado verificar grande crescimento na década de 90, a produção tem patinado e não será surpresa se Goiás for superado por Santa Catarina, caindo para o quinto lugar no país.

Ao serem perguntados sobre as vantagens de Goiás, os dirigentes de laticínios locais afirmam que uma delas é o fato do estado ter grande potencial para produção de leite de baixo custo, em razão da disponibilidade de grãos e de pastagens de braquiária, e que a tecnologia de produção de leite a pasto foi dominada pelos produtores. Esse custo baixo implica na cobertura de todos os custos de produção, ou está calcado na ausência de outras alternativas? Ainda, sem dúvida, há potencial para produtividade muito maior, que resulta em maior margem líquida por hectare, mas tenho lá minhas dúvidas se o custo realmente pode cair muito abaixo dos valores encontrados no trabalho.

Que esse Diagnóstico sirva de ponto de partida para que ações efetivas sejam feitas, o que não é fácil, dada a enorme assimetria entre produtores e as dificuldades inerentes a se trabalhar com produtores que basicamente sobrevivem da atividade e que são em grande número.

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Comentários:

José Maria Solis

Vazante - Minas Gerais - Produção de leite (de vaca)
postado em 09/10/2009

No perfil de muitos produtores até mais ou menos 300 litros/dia, ainda ecoa uma frase de 30 anos atras: "Criei minha familia tirando leite". Esta frase não embute a realidade "que o preço do leite em 30 anos caiu cerca de 70%", considerando-se as correções. Ora, isto nos leva a conclusão que o perfil de eficiência (e permanência) do produtor de hoje tem que ser muito diferente, para se conseguir o mesmo resultado de 30 anos. Ai entram problemas, onde um dos principais é cultura, como o artigo detecta.

Sem duvida, a dinâmica dos dias atuais indica a saida breve de mais produtores da atividade e os que ficarem tem que estar sintonizados com as tecnologias e consequentes controles. Neste quesito, governo e entidades afins podem e devem ajudar.

O artigo é muito oportuno.

Homilton Narcizo da silva

Goiânia - Goiás - Produção de leite (de vaca)
postado em 09/10/2009

Muito boa esta reportagem, assisti o seminario e realmente achei que a situação em Goias é muito pior que se imaginava, mas para tudo tem jeito e solução, desde que as partes se interessem, e principalmente as empresas receptoras de leite, tenha um pouco de respeito pelo sofrido produtor, que ou chova ou faça sol, entrega seu leite para as fomigeradas industrias, porque não temos outra saida, ou temos que sair da atividade.

Um exemplo bem claro da falta de respeito para com o produtor, e o meu caso, que entrego leite para uma cooperativa da qual faço parte e esta entrega para outra firma, a tempos atras um governador do Estado (go), assinou uma portaria obrigando as industrias que operassem no estado, e que tinham vinculo com o Fomentar Estadual, teria que apresentar até o ultimo dia do mes em curso, o preço que pagaria o leite do mes seguinte, mas isso nunca aconteceu, no meu caso, entregei leite 55 dias e no dia do meu recebimento que fiquei sabendo atraves de nossa cooperativa, que a fima só ia nos pagar com 8 centavos a menos.

Abraços, Homilton

William J A P Sousa

Goiânia - Goiás - Consultoria/extensão
postado em 10/10/2009

Vejo que Goias esta se transformando muito, atraves do leite. Porem varias empresas que fazem a captacao estao usando de má fé quando fazem o pagamento do leite. Todos investem em nutricao, equipamentos, etc e nao sabem quanto vao receber! Parece piada, mas todos tem que fechar a conta sem saber qual sera sua receita bruta, mesmo já sabendo seu custo fixo/L de leite.

Assim sendo, creio que os produtores devem criar uma unidade especifica que cote o leite (independente se ele é tipo A ou de latao mesmo) mas que os varios tipos de leite tenham no minimo um valor pre estabelicido assim como a ARROBA tem seu mercado futuro...

Creio que esses encontros sao vitais porem nao nos levam muito a lugar nenhum. Ação, isso sim é necessario. Ação sem politica por trás mas, sim PRODUTORES PROFISSIONAIS em busca de solucionar um problema historico na cadeia do leite nacional.

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