Hoje, o rebanho bovino leiteiro da Holanda é de cerca de 1,5 milhão de cabeças, distribuídas em 20.746 fazendas leiteiras e com produção anual de 12 bilhões de litros de leite e 600 mil toneladas de queijo. São em média 73 vacas por propriedade e 580.000 kg de leite/ano por fazenda. O crescimento da produção de leite tem sido de 2,2% por ano, acima da média da União Europeia.
O rebanho do país dos pôlders (os pôlders são áreas drenadas situadas abaixo do nível do mar, que constituem hoje, aproximadamente, 40% da área do país) busca as seguintes características genéticas: boa conformação funcional, longevidade e leite com alto teor de sólidos, fruto de anos de melhoramento genético e desenvolvimento de tecnologias. Para o produtor holandês é orgulho ter vacas que atingiram a marca de 100.000 kg e não são poucos que possuem tal mérito. No entanto, os holandeses reconhecem que 70% do resultado vem do manejo, com a nutrição representando aproximadamente mais da metade do sucesso.
O país possui 1.204 mil hectares destinados ao leite e a maior parte das fazendas adota o sistema de produção em free stall, ou semi-confinado com pastagens de azevém. O gado é predominantemente Holandês Preto e Branco e Vermelho e Branco.
Foto1: Sistema de produção free-stall

Para podermos fazer qualquer tipo de comparação com o Brasil é preciso conhecer melhor a pecuária leiteira e o mercado local. Então vamos lá!
O primeiro ponto que chama atenção é o sistema de cotas de produção. No pós-guerra, a necessidade de garantir alimentação estimulou a política de subsídios agrícolas que por sua vez resultaram em superprodução de leite. A solução que já perdura por décadas foi a aplicação de cotas de produção. A cota é a maneira do governo controlar a oferta e assim evitar a superprodução, de forma que os preços mantém-se, em tese, menos voláteis e remuneradores. O produtor pode comprar uma cota compatível com a sua produção, o que não é barato e lhe custará em seu custo de produção em torno de €$ 0,03 (R$ 0,075) por kg ainda que tenha subsídios de aproximadamente €$ 0,05 (R$ 0,125) por kg. Caso a produção seja maior que a cota, o produtor terá que pagar altas multas pelo excedente. Mas se por algum acaso a produção não atingir o valor da cota, ele pode vender essa diferença para outro produtor. Em 2015 as cotas deixarão de existir e os produtores já estão se preparando para esse novo momento. Ainda é incerto o que vai acontecer, mas os holandeses acreditam que sem as cotas eles poderão vender seu leite de forma mais competitiva e o país poderá ampliar o seu mercado.
Há variações no preço base entre o inverno e o verão e o valor médio gira em torno 30 centavos de euro (R$ 0,75/kg). Segundo o site da Royal FrieslandCampina, principal laticínio do país, hoje o preço ao produtor é 32 euros para 100 kg de leite (cerca de R$ 0,80/kg) com 4,41% de gordura e 3,47% de proteína, níveis bem acima dos nacionais. Quando se fala em Holanda, se fala na Royal FrieslandCampina, cooperativa resultante da fusão da Friesland Foods e Campina em 2008. Só a mega-cooperativa holandesa é responsável por cerca de 74% da captação do leite do país.
Para atingir a excelência, os produtores holandeses trabalham duro, como é de praxe na atividade. Investem pesado em tecnologia e eficiência.
A produção inicia-se com a escolha de uma boa genética, adequada para o sistema de produção e objetivo do produtor, e muitas fazendas acabam utilizando programas de acasalamento para corrigirem e otimizarem as características requeridas.
As vacas são assistidas em todas as fases de vida. Durante as primeira semanas, os animais são mantidos em baias individuais, onde fazem a colostragem e a ingestão de sucedâneo. Após esse período, as fêmeas vão para baias coletivas, iniciam a ingestão de ração e volumoso e interagem com outras bezerras de sua categoria. Já os machos são vendidos. Quando os produtores veêm que uma vaca está abaixo do padrão médio de leite, eles a cruzam com raça de corte, como por exemplo Belgian Blue, e vendem o animal a um preço bem mais alto para a produção de vitelo.
A tecnologia a favor da produção
A maioria das fazendas holandesas conta com mão de obra familiar, em que as funções são divididas igualmente. Aliado ao baixo número de pessoas que trabalham na fazenda e ao sistema de produção, muitas tarefas foram mecanizadas, como é o caso do uso das ordenhadeiras-robôs, presentes em 15% da propriedades.
A ordenhadeira-robô fica dentro do estábulo com livre acesso às vacas. Assim que a vaca entra no robô é reconhecida através de um chip e a ordenha é feita de forma "personalizada". Dessa forma o robô sabe quanto deve fornecer de ração, se a vaca está com algum acometimento de algum teto (o colostro ou o leite condenado é separado e não vai para o tanque), qual é a média de produção, quantas vezes a vaca pode ser ordenhada por dia e etc. O robô faz a limpeza dos tetos antes de iniciar a ordenha e as teteiras são acopladas por meio de localização dos tetos por luz infra-vermelha. Todos os dados como número de ordenhas e passagens, dados de qualidade por teto (condutividade, cor, CCS), volume ordenhado e outros ficam armazenados em uma central, os quais são base importante para decisões no gerenciamento.
Foto 2: Ordenhadeira-robô

Outra tecnologia muito utilizada é o detector de cio. O animal usa um aparelho na perna (pedômetro) que mede a intensidade da movimentação física dos animais, avaliando o aumento do número de passos dados pelo animal. Quando entra no cio o produtor é avisado via sms no celular que é hora de inseminar.
Foto 3: Pedômetro avisa via mensagem de celular que o animal entrou no cio

A automatização também está presente no manejo na hora da alimentação, desde alimentadores automáticos (vacas e bezerras) a vagões misturadores autocarregáveis.
Foto 4: Alimentador automático de bezerras

A limpeza dos estábulos é feita com raspadores puxados com corrente ou robôs raspadores.
Foto 5: Robô raspador

O bem-estar também conta com o auxílio da tecnologia, como cortinas que se fecham automaticamente e protegem os estábulos caso ventos fortes aconteçam ou caso aumente a umidade ambiente, a fim de proteger os animais e as camas. E todos os estábulos visitados apresentavam sistemas de ventilação e escovas para os animais se coçarem.
Foto 6: Escova para o animal se coçar

Ainda que a maior parte da produção seja confinada, o governo paga uma bonificação para os produtores que criam seus animais a pasto, isso por pressão da própria sociedade a fim de promover uma melhor imagem para o país.
A preocupação com o meio ambiente não é assunto recente; muitas fazendas trabalham fazendo a separação do esterco para aplicações como fertilizantes, cama (utilizado junto com areia e palha) e energia. Ainda há poucos estudos sobre a utilização dessa cama de esterco em clima tropical, mas já é realidade em alguns países do Hemisfério Norte. Chamada de Bedded-Pack, a cama é uma alternativa sustentável para quem quer investir em conforto e redução de custos.
Foto 7: Biodigestor

Em um primeiro momento tantos equipamentos e tanta automatização podem soar distantes da realidade brasileira, mas todos esses aparatos tecnológicos são necessários para suprir o déficit de mão-de-obra e responder com eficiência ao alto custo da terra de um país que precisou conquistá-la drenando o mar. Até aqui, a pecuária holandesa passou no teste de desenvolver animais de alta qualidade, longevos e criados em um sistema de produção eficiente para os padrões do Continente. Resta saber como as modificações que afetarão a União Europeia após 2015 serão assimiladas pelos produtores do país que é sinônimo de leite.












Felipe Henrique Vilela Alves
Liberdade - Minas Gerais - Médico Veterinário
postado em 10/07/2012
Ótimas considerações sobre o setor leiteiro do país.
Outro ponto importante seria o que eles lá chamam de "Fat quota" ou "Fat adjustment", o que implica que os produtores holandeses além de terem que se adequar às cotas leiteiras, eles também possuem um fator de correção de gordura no leite. Cada produtor tem uma cota anual de gordura no leite entregue as indústrias, ou seja, se esta conta for de 4,16% de gordura, mas o produtor entregar um leite com 4,43% de gordura, o mesmo terá que arcar com esse excedente entregando uma quantidade menor de leite no ano. Até 2008 esse fator de correção era de 0,18/0,1g de gordura/Kg de leite. A partir de 2008 esse fator passou a ser de 0,09/0,1g de gordura/Kg de leite. Tomando como exemplo uma fazenda com cota leiteira anual de 2.065.000 Kg de leite e com os percentuais de gorduras citados acima, o calculo ficaria assim:
((4,16 - 4,43) x 0,09 x 2.065.000) = - 50.179,5 kg
- 50.179,5 kg de leite a menos que o produtor terá que deixar de entregar às indústrias no ano.
Essas são algumas questões que os produtores holandeses têm que se adequar para produzir leite em seu país.